Berggasse 19

30ago11

BERGGASSE 19 – UM POETA NA CASA DE FREUD

João José de Melo Franco

Berggasse seria, em português, rua do Promontório, ou, o seu contrário, rua do Baixio. Depende, é claro, do ponto de vista de que a olhamos, se do plano onde se situa a Igreja dos Votos (VotivKirche), um baixio, ou se do ponto de vista de quem está diante do número 19 da Berggasse, um promontório, a Viena alta, as torres dos antigos edifícios, como uma Acrópole ateniense, diante da qual deixamos visível nossa  pequena estatura: Berggasse 19, a casa onde viveu e trabalhou, por 47 anos, Sigmund Freud, o Pai da Psicanálise.

Para um poeta que percorreu alguns campus universitários e dedicou parte de seu tempo a perscrutar a própria alma, às vezes por esforço próprio, outras, com a ajuda de psicanalistas, o nome de Freud assombra, mesmo para quem bebeu bem mais em Carl Gustav Jung do que na obra do grande neurologista de Viena. Seja como for, estamos ali, onde hoje se ergue, acima do passeio, um enorme letreiro com o nome daquele que notabilizou o endereço, escrito em branco sobre vermelho, de baixo para cima: FREUD. E, assim, assombrados, nos lançamos porta adentro e subimos o primeiro lance de escadas até chegar às portas dos apartamentos 3 e 4, hoje transformados no Sigmund Freud Museum.

Se lembrarmos que Freud abandonou o pequeno edifício da Berggasse 19, em 1938, já sob ameaça nazista, na Áustria anexada à Alemanha, teremos de nos esforçar para divisar algo que nos remeta ao tempo em que ele ali vivia, uma vez que o local foi restaurado somente em 1985, quase 50 anos após seu exílio em Londres, onde viria a falecer em 1939. E, apesar das recepcionistas pouco amistosas, da mal-arrumada lojinha de souvenirs freudianos, aos poucos, o piso de tábuas corridas, as janelas com delicados ornamentos, o ambiente se transforma, e tomamos consciência de que estamos na casa do homem que, contra tudo e todos, mudou para sempre o modo como nos percebemos seres humanos e, que, finalmente, tirou do calabouço da História, e da Ciência, a palavra “loucura”, lançando sobre ela as primeiras luzes do entendimento da alma humana.

Hoje, no Sigmund Freud Museum, pouco encontramos do que foi aquela casa nos tempos de seu ilustre morador: um chapéu, uma boina, um guarda-chuva, a maleta do médico, um baú, parte de seu consultório e gabinete, uma cristaleira com pequena parte de sua famosa coleção de estátuas e objetos antigos; tudo doado ao museu por sua filha Ana Freud, ou, como ele a chamava, “minha Ana Antígona”. No mais, primeiras edições de seus escritos, documentos e fotos, muitas fotos. A elas nos agarramos, com o olhar atento e terno. E, olhando-as assim, por trás das imagens do Pai da Psicanálise, vemos surgir o outro pai, com sua esposa, com seus filhos e filhas, com seus netos, com seus amigos, e vemos transparecer nesses rostos os caminhos em que a mente do grande homem trafegou, a pequena e a grande família, a família pessoal e a outra, a da raça humana. Evidentemente, não podemos, ali, ver Édipo e seu pai, Sófocles, mas o poeta assim mesmo os vê, libertos de suas trágicas existências, como almas por trás do rosto, inquisidor e pleno, desse homem, que, ao que tudo indica, lutava, permanentemente, em busca de paz e lucidez: por si só, uma busca a que só gigantes, como ele, podem ousar.

Mas, é pelo olhar do poeta, em busca de alguma similitude, de algum olhar efusivo, de algum gesto de estranheza, de algum porvir que tenha escapado ao olhar do viajante, que nos colocamos diante do homem e da luta por se manter são, no tempo. E, por um instante, penso ver em seu rosto traços das inúmeras cirurgias a que se submeteu, tentando controlar um câncer facial, que até o fim da vida o atormentou… Pensamos ouvir sua voz, algum gemido de dor, o silêncio das amarguras, a inquietude do homem diante do insondável, a ânsia da descoberta, a mente atirada sobre a alma, o esforço heroico entre o sonho e a cura… como as ruínas de uma Acrópole dos desejos humanos… remontada até o estertor da insuficiência… E é aí que percebemos, então, quão poucos homens podem, construindo sobre si mesmos, construir para todos. Percebemos quanto nos foi dado e o quanto nos modificamos, em pouco mais de um século, desde a publicação de Estudos sobre a histeria. E é assim, que ali, dá-nos também uma estranha compulsão para o riso. Não o riso do escárnio e da indiferença, mas o riso do encontro e da aquiescência do que é, verdadeiramente, humano, e sentimos vontade de abrir as janelas de nossa alma diante de tamanha ousadia e liberdade de espírito… E o fazemos, em silêncio, em reverência, em agradecimento.

De mãos dadas com minha companheira, dessa e de outras viagens, com a alma pacificada e semelhada, voltamos ao passeio da Berggasse 19, e seguimos, mais livres e confiantes, rumo à VotivKirche, onde ir depositar votos por aqueles que amamos.


Você não sabe que é poeta até que alguém, ou algo, lhe diga isso. E também não começa a escrever poemas do dia para a noite, por decisão consciente e autodeterminada. Não é como frequentar a escola e receber um diploma que o habilita a tal feito, embora seja minimamente desejável ser alfabetizado. Há, no início da trajetória de todo poeta, uma enorme quantidade de acasos, coincidências, sincronicidades e, também, uma boa dose de vivência emocional, na vocação afetiva e no pendor amoroso, já que o amor, ou a falta dele, constitui-se no primeiro motor da nossa percepção de mundo. É algo que acontece sem que haja intenção de que aconteça. Enfim, ser poeta não é dom, mas exige um dom, que é o de se deixar perpetrar e ser conduzido pelo poético. E é matéria que só se pode aprender depois de perpetrada e aceita.

Dos que são, por assim dizer, tocados pelo poético, poucos são aqueles que se lançam no exercício da poesia. Pois, uma vez tendo se perpetrado, o poético deixa ao indivíduo a liberdade de escolha, pois o poético não é característica exclusiva da poesia, e pode se manifestar nas mais diversas áreas do nosso fazer. Já com a poesia, é diferente. A poesia não existe separada do seu correlato físico, que é o poema. Constituir o poético em um poema é o que chamamos de poesia, e como esta não existe separada do poema, pede ao poeta vontade, empenho e aprendizado, pois construir o poema exige certo domínio técnico. O poeta é aquele que, tocado pelo poético, fez a clara escolha de manifestá-lo através da poesia e de realizá-lo fisicamente no poema, e é isto que o diferencia dos demais artífices deste mundo, sejam eles poéticos ou não. Em resumo, podemos dizer que o poético é o coletivo, se não todo ele, ao menos a tribo circundante, e a poesia, o conhecimento de como realizá-lo em palavras no poema, que é pura e tão somente a função do poeta dentro da sua tribo.

E tudo isto para dizer que o nascimento dos poetas não se dá naquele momento em que o indivíduo, saindo do útero materno, sente pela primeira vez a aspereza do ar invadir suas vias aéreas. O nascimento dos poetas acontece mais tarde, depois que ser humano já experimentou, minimamente, certa quantidade de alegrias e tristezas, de carícias e dores, e já tendo sido admitido em sua tribo humana, e adquirido certa massa corporal, e se iniciado nas aprendizagens mundanas e religiosas, expõe-se, assim, à possibilidade de vir a ser tocado por esse ente coletivo, que é o poético. E o modo como isto se dá, na prática, varia de acordo com a quantidade de tipos humanos, e suas geografias, e suas línguas e sociedades. Duas histórias para representar esses nascimentos.

Conta-se que Nelson Mandela, antes de se tornar mundialmente conhecido por sua luta contra o apartheid, ainda vivendo em Thembo, na região central da África do Sul, ouvia poemas ancestrais, que contavam as lutas travadas por sua tribo em tempos remotos. Depois de ter sido libertado da prisão e deixado a condição de terrorista, em 1990, deu inúmeras entrevistas, onde relatou esses episódios de sua infância e juventude, tendo narrado, mais de uma vez, esses poemas em seus depoimentos. É fato sabido que Mandela não se tornou poeta, mas a divulgação dessa influência da poesia em sua formação, junto aos jovens da África do Sul pós-apartheid, fez gerar um movimento que vem lentamente resgatando a poesia nativa desse país, que já conta hoje com uma nova geração de poetas, que se exercitam nas duas tradições poéticas conhecidas, a oral e a escrita.

Para esses poetas, o perpetrar do poético se deu através do contato com poemas nativos, narrados por um ex-preso político.

Rainer Maria Rilke (1875-1926), talvez o maior poeta de expressão alemã na passagem do século XIX para o XX, em carta a uma amiga, conta que conservava certa mágoa de um mestre de latim que tivera na infância, que frequentemente o espancava, quando, sabatinado diante da classe, mostrava-se completamente inapto para o aprendizado da língua dos césares, e que, certa vez, para evitar as surras diante dos amigos de escola, que também zombavam dele, decidiu se entregar à maratona de ler, em um mês, além da gramática latina, os principais poetas da tão prolífica língua do Lácio, entre eles Virgílio, Horácio, Ovídio, Juvenal, etc. Como resultado desse esforço, conseguiu inclusive traduzir longos trechos de poemas desses poetas, e ainda compôs um poema, certamente o seu primeiro, tendo como tema aquilo que lera. O mestre foi surpreendido quando, convocando Rilke para a sabatina oral, ouviu-o declamar Virgílio, em latim, em alto e bom som e, ainda de quebra, o seu poema. Nunca mais apanhou, de mestre nenhum. Rilke ainda conta que, não fosse a brutalidade de seu mestre, e a vergonha que sentia diante dos amigos, provavelmente não teria feito o esforço, pois, como ele mesmo disse, “não aprendia completamente o latim, porque não conseguia ouvir a voz que emanava daquela gramática chata e sem vida, mas com os poemas foi diferente, ouvi claramente a voz que compusera os versos, quase como se fosse a minha própria voz”.

O perpetrar do poético para Rilke deu-se de modo obtuso, mas eficiente, pois o poético, como todas as demais forças coletivas, sempre encontra um modo de superar os problemas. Pena que seu primeiro poema se perdeu.

Pergunte aos poetas que conhece, e verá que exemplos como estes aqui narrados são comuns no universo da poesia, embora pouco revelado pelos próprios poetas que, não raro, ou consideram esses fatos de pouca importância no contexto de seu artesanato, ou o mascaram, como que tentando dar um caráter menos ocasional, e mais ideal, mais missioneiro, ao fato real de que se tornaram poetas simples e tão somente pelo fato de que foram colhidos pelo acaso poético, e impulsionados e regidos, a partir daí, por forças coletivas pouco conhecidas e, portanto, que pouco servem a algum empirismo filosófico ou à teoria literária ou à crítica. Eu, ao contrário, acho a questão sumamente importante: saber como os poetas, desde Homero, foram impulsionados pelo poético rumo à poesia poderia ser o modo de resolvermos um antigo mistério, a saber: quais foram as bases e como se deu a gênese da poesia? Penso que seria um dos caminhos mais certeiros, senão o mais poético; mas a falta de material biográfico, principalmente do século XIX para trás, inviabiliza a tarefa. Contudo, para matar minha curiosidade, fiz uma breve pesquisa com o círculo mais íntimo de poetas amigos. O que descobri foi que, 90 % deles foram tocados pelo poético a partir da leitura de livros de poesia, e que os outros 10 % o foram através de outras experiências, no mais das vezes, orais.

Com apenas esta pesquisa, e alguns poucos relatos que encontrei e ouvi em minhas andanças, percebi que o material seria insuficiente para a formulação de uma teoria, principalmente em moldes acadêmicos. Porém, sendo poeta, sei que a questão da gênese da poesia retorna de tempos em tempos e impõe a necessidade, senão de uma resposta, ao menos de um contorno que aclare, para nós, poetas, e para toda a massa humana que se beneficia da poesia, a real dimensão de nossa jornada humana, além da nossa paternidade poética. Pois, o que encanta as pessoas na poesia não é a proposição de mistérios, mas o seu contrário: dar à luz o que se acreditava não saber ou não poder ver. Fazer incidir luz sobre a questão da gênese da poesia é, no mínimo, mantermo-nos fiéis ao nosso ofício de poetas, e possibilitar que, um dia, venhamos a responder objetivamente à pergunta: Para que serve a poesia? – que, sendo aparentemente desimportante ou sem resposta ou com muitas respostas, é também frequentemente utilizada para menosprezar a real capacidade que a poesia tem de transformar as pessoas e o mundo ao seu redor. Mas, enfim, vamos ao que viemos.

Se tomarmos como base real o fato de os poetas atuais terem sido tocados pelo poético através da leitura de poesia, em sua maioria, e pela experiência oral, em sua minoria, e fazendo o caminho inverso da história, de agora para trás, perceberemos que esse percentual vai se modificando, até chegar ao seu exato oposto. Se o percentual atual é de fato este, 90% através da poesia lida e 10% através da poesia ouvida, isto se deve ao fato de que uma invenção tecnológica do século XV mudou definitivamente os pesos da balança.

A invenção dos tipos móveis em chumbo fundido, promovida por Johannes Gutenberg (1390-1468), deu à produção de livros uma dinâmica até então não sonhada e marcou o início do fim da chamada tradição oral que, até aqueles dias, dividia o peso da balança com as cópias manuscritas de livros, muito mais caros e mais raros, porquanto sua manufatura era tecnicamente lenta e complexa. Com menos livros no mundo, e sendo a alfabetização algo imensamente restrito, a atividade mnemônica, nossa capacidade de memorizar visual e auditivamente nossas experiências, era, por certo, o modo como as informações passavam de homem a homem, oralmente, ao menos entre as pessoas comuns, que pouco ou nenhum acesso tinham às escolas eclesiásticas que, junto com as cortes da nobreza, eram os únicos lugares onde, durante a Idade Média, se encontrava homens alfabetizados. Por isso mesmo, não deveria estranhar que foi primeiro das abadias que saíram as principais correntes da poesia medieval, como a poesia mística feminina, a poesia trovadoresca provençal e os chamados poetas goliardos, que, do século XI ao século XIII, constituíram o maior fenômeno poético que se tem notícia da Idade Média, e do qual fizeram parte poetas do porte de um Arquipoeta e de um Pedro Abelardo, escrevendo poesia sobre temas religiosos e mundanos, em latim e nas línguas vernáculas.

Se considerarmos que a poesia da Idade Média teve como principal tema o Amor, encontramos aí uma pista para entrever como o despertar da poesia se deu para os poetas medievais. Falando de amor, os poetas medievais tinham como base de sua escrita principalmente o poeta latino Ovídio, a quem imitavam ordinariamente. Depois vinham os demais latinos, Virgílio, Horácio, etc. É de se pensar que cópias de Ovídio e dos demais poetas latinos chegaram até os scriptoriuns dos mosteiros medievais, onde eram copiados e distribuídos na enorme rede de mosteiros e abadias cristãs da Europa de então. Desse modo, podemos ver que, ao menos a partir do século VIII, os livros já estavam na pauta dos poetas, e é claro que foram usados no processo de perpetração do poético. Até porque, a partir do século VI, a Igreja sacudiu a Europa com seu processo de catequização dos povos bárbaros e, para isso, certamente, tomou o controle do que era então veiculado oralmente. Tomando isto como certo, podemos dizer que nosso percentual estava, na Idade Média, em torno de 60% a 40% a favor dos livros, e corroboram para isto a importância que a Igreja dava a eles, tendo, mais de uma vez, promovido queimas de livros considerados heréticos durante esse período, incluindo livros de poemas. Sabemos que Sapho de Lesbos, a fabulosa poeta lírica grega do século VI a.C., foi uma das que tiveram sua obra destruída nessas queimas.

A bem da verdade, quando falamos da tradição oral da poesia, estamos nos referindo a um tempo do qual temos pouquíssima informação. Um tempo que, provavelmente, antecede a Homero, já por sua vez um poeta lendário. Sabemos que desde o século V a.C. livros circulavam pelos portos do Mediterrâneo, havendo mesmo a existência de uma espécie de indústria do livro na Antiguidade, com empreendedores que, servindo-se de trabalho escravo, comum, então, faziam proliferar cópias dos poetas que haviam cravado seus nomes nas mentes do povo e nos anais da História. Quero crer que poetas como Homero e Hesíodo, ao contrário do que as mistificações promoveram ao longo dos séculos, escreveram seus poemas e tiveram como base de seu despertar poético textos que não chegaram até nós, ou que, isto, sim, foram a eles transmitidos, em maior proporção, oralmente, período este onde certamente encontraríamos nossas cifras no total inverso do que a encontramos hoje.

As mistificações elaboradas desde a Antiguidade têm uma razão. Para aqueles, posteriores a Homero e Hesíodo, que já estavam mais acostumados à existência dos livros, tinham como base e exemplo unicamente esses dois poetas, pois nada, nem eles e nem nós, encontramos que os anteceda. Enfim, o que havia de oralmente registrável até Homero e Hesíodo, certamente foi convertido em texto escrito por esses dois poetas, ambos com uma poesia de dimensão bíblica, como se a eles tenha sido dada a missão de organizar, pela primeira vez, o conjunto de informações até então transmitidas oralmente a um povo: Homero narrou a sanha guerreira e amorosa desse povo, e Hesíodo, a sanha divina e a sanha organizacional, e legal, desse povo ancestral do Ocidente. Daí entender que foi fácil atribuir a eles uma atividade poética puramente oral, dando a Homero, por exemplo, inclusive a qualidade da cegueira, ou seja, dando a ele a incapacidade da escrita, numa óbvia tentativa de estabelecer uma gênese da poesia dentro de um tempo histórico reconhecível. Além disso, existe o fato da confusão que se estabeleceu a partir da atividade popular dos rapsodos, os artistas declamadores, que memorizavam os poemas e os narravam publicamente nas cidades da Grécia. A imagem do rapsodo, que mantinha o contato com o povo, confundiu-se com a imagem do aedo, que compunha versos, além de declamá-los. É possível ver aqui certa dose de corporativismo por parte dos rapsodos, a quem interessava ter esses poetas como pertencentes a uma tradição puramente oral, pois isso lhes daria a qualidade profissional extra de serem também herdeiros de sua obra e glória poética.

Seja tudo isso real ou mera especulação, o fato é que só temos uma trajetória histórica acerca da gênese da poesia, que podemos percorrer com um mínimo de certeza, que é a partir de documentos, ou seja, de poemas escritos, fisicamente registrados, que foram ao longo dos séculos aperfeiçoando seu suporte, até chegarmos ao livro e, agora, com o advento da internet, ao livro eletrônico. Visto assim, a gênese da poesia, para nós, poetas nascidos dos livros, não é outra senão o registro físico dos poemas, que hoje encontramos nos livros e em suportes eletrônicos, e que um dia já foram um pedaço de couro ou um rolo de pergaminho. Se quisermos ir além disso, teremos só a imaginação como companheira, e aí vale tudo. Porém, como ainda hoje não é incomum atribuir-se aos poetas a capacidade de antever, um ver antes que inclui em nossa herança os xamãs, os adivinhos e os profetas, poderíamos dizer, que aqueles homens do Paleolítico, que pintaram as paredes de Altamira e outras cavernas, seriam como que os primeiros poetas, que, ainda sem uma escrita, fizeram ali uma primeira tentativa de dar matéria ao poético, uma matéria ainda em nível simbólico, mas já linguagem, e não menos superlativa que a linguagem de Homero ou a nossa. Seguindo essa trilha, poderíamos dizer que foram os poetas os inventores da escrita? Se foram, começaram ali, tateando as paredes frias e ásperas das cavernas, guiados por uma força que os transcendiam, sendo perpetrados pelo poético, em solidão, portanto, primitivos candeeiros, rudes gráfios e tinta vermelha como sangue, e não muito diferente de como, simbolicamente, escrevemos poesia hoje.

E de volta ao começo: Para quê serve a poesia? Ainda seguindo a trilha da imaginação, talvez já tenhamos servido o que tínhamos para servir: a invenção da escrita e, através dela, a constituição de um caminho de revelação, um caminho civilizador? Mas, então, se já está feito, por que continuamos? A resposta talvez esteja num fato observável nos últimos dez anos, que foi uma reflorescência da poesia em nosso meio, e registrada nos mais diversos lugares do mundo. Seria esse redespertar o início de uma nova invenção? Seria essa invenção, seguindo a nossa tradição, uma nova linguagem, uma nova escrita, uma nova arte? A resposta a essa pergunta seria então isto: poesia, que já serviu para fundar a escrita, agora, de tempos em tempos, serve para refundá-la? Ainda não sei. Mas dá o que pensar.

É claro que, partindo de uma pesquisa tão mínima, não vim aqui propor, e provar, que os poetas, na maioria das vezes, não nascem poetas, mas, sim, da leitura de livros; que a gênese da poesia, como a conhecemos hoje, está estreitamente ligada à existência do registro de poemas e de livros de poemas; nem que a utilidade da poesia reside em refundar a escrita, além de dar a saber o que se acreditava insabido. O que vim dizer, é que temos material suficiente para rejeitarmos as mistificações em torno do nosso ofício. Mistificações essas muito provavelmente promovidas pelos próprios poetas, que, acostumados ao espanto e ao deslumbramento que se expressa diante da beleza e da profunda visão emanadas dos versos, crêem que assim contribuem para a manutenção de seu status, a saber: dizer que para ser poeta é preciso nascer com o dom da poesia, e esse dom ter certo quê de atribuição divina; e, assim, por haver um dom, ser a gênese da poesia algo misterioso e intocável, ou sobre-humano; e por ser sobre-humano, ser a utilidade da poesia a manifestação suprema da verdade e da beleza. Nada disso é verdadeiro e só contribui como desserviço à própria poesia, que já tendo se confundido com a própria literatura do homem, é hoje o gênero literário menos lido no mundo todo. Desmistificar nosso ofício é aproximá-lo das pessoas humanas e ser com elas apenas humanos, ainda que possamos fazer isso com brilhantismo e arte. A grandeza da poesia não está em ser privilégio de poucos nem divina, está em ser o mais superlativo dos organismos verbais do homem, e isso se deve ao fato de que nasce dessa enorme e ainda incompreendida força coletiva humana e, portanto, de homens comuns e suas tribos. A mesma força coletiva que já erigiu pirâmides, que derrubou impérios, que fundou religiões, que pôs a pique Bastilhas e derrubou muros como os de Berlim.

Evidentemente, continuamos sem saber, de fato, como nascem os poetas, qual a gênese e para que serve a poesia. Mas gosto de lembrar que os poemas de Homero e Hesíodo eram o que, basicamente, se ensinava nas escolas gregas pré-socráticas; que Otávio Augusto, quando precisou de uma base histórico-mitológica para instalar sua democracia principesca, pediu a Virgílio que escrevesse a Eneida; que os poetas goliardos, que fugiram dos claustros medievais e caíram nas estradas da Europa, onde cantavam seus poemas de amor profano, também foram os estimuladores do surgimento das primeiras universidades; que os panfletos atirados sobre a França, pelos Aliados, durante a Resistência à invasão nazista, foram escritos por poetas. Gosto de lembrar, porque penso que, nesses fatos, sem mistificação nenhuma, podemos ver que a poesia serviu para alguma coisa.


Caros Amigos, bem que o Octavio Paz lembrou: “… a época moderna é a da aceleração do tempo histórico… Aceleração é fusão: todos os tempos e todos os espaços confluem em um aqui e agora”. Nada representa melhor este estado de coisas do que a tecnologia atual: internet, banda larga, imagens de alta definição, telefonia celular etc. Mas isso não tem nada a ver com educação, nem com maior ou menor número de leitores.

Na Antiguidade, e até a Alta Idade Média, a tecnologia do livro era a cópia. Em Roma, Constantinopla e Atenas existiam empresas especializadas em fazer cópias de monuscritos e estes circulavam intensamente pelos portos do Mediterrâneo. Na Biblioteca de Alexandria, a pessoa podia obter, em poucos dias, a cópia de um livro que desejasse. A tecnologia do livro sempre esteve a serviço da demanda de mercado, nunca a serviço da educação.

O aumeto populacional, desde os tempos antigos, sempre previu um aumento do número de leitores e um igual aumento de não-leitores. A tecnologia inventada por Gutenberg também visava ao aumento da demanda, principalmente por bíblias. O aumento populacional e a cristianização da Europa demandaram a melhoria tecnológica implementada pelo inventor alemão. E daí para frente, as novas tecnologias do livro visaram o sempre crescente aumento de demanda, nunca os aspectos educacionais. Somente no século XX é que surgiu um ramo da indústria do livro voltado para estudantes, mas girando sempre em torno da publicação de cartilhas. É claro que a coisa evoluiu. O aumento populacional implica no aumento de escolas e assim aumenta a demanda por cartilhas. Mas isso não tem nada a ver com educação ou com a formação de leitores de livros. Educar pessoas não implica necessariamente em formar novos leitores. Ler é uma descoberta e uma escolha. É quase um modo de vida. Mas existem outros modos de vida, assim como existem leitores e não-leitores. Estranhamente, o consumo de livros no Brasil só tem aumentado. Mas, ao que tudo indica, isso não tem nada a ver com educação. E muito menos tem a ver com a formação de novos leitores, e menos ainda com as novas tecnologias e os novos suportes virtuais do livro. Aparentemente, o número de leitores continua, proporcionalmente, e com pouca variação, o mesmo de sempre.

A nova tecnologia nunca influenciou, e as novas não influenciarão, o aumento ou a diminuição dos leitores de livros; nem a educação, como é hoje, o fará. A tecnologia, a educação e a indústria do livro, estão a serviço do aumento da demanda, dos novos meios de produção e da obtenção do lucro. Ou seja, enquanto a economia de mercado não se propuser a por a leitura de livros no rol das ações que estimulem o consumo e a geração de riqueza, não assistiremos ao aumento desse tão debatido assunto, que é o aumento dos leitores de livros. Não há saída aparente. Talvez um dia cheguemos ao ponto em que poderemos abandonar a metodologia atual e voltar para a caverna. Lá, na caverna, munidos de celulares, e computadores de mão, e GPSs, e tudo o mais  que a tecnologia tem de bom e prático, reiniciaremos o caminho da educação, através de um método cuja base essencial seja a leitura de livros. Mas mesmo que o fizéssemos, ainda assim teríamos de lançar mão de uma enorme esperança: a esperança de que o hábito de ler livros, desenvolvido nesta nova educação, se torne mais forte que as decisões individuais e a premente luta pela sobrevivência.


Na vida dos que se aventuram a exercer atividade voltada para o mundo das Letras, há um momento crítico em que o candidato a poeta, prosador, cronista, filósofo, ensaísta, enfim, qualquer um dentro do amplo espectro de adjetivos que compõem o universo da literatura, precisa sabatinar-se e, antes, impor-se uma espécie de auto-aprendizado, que é conquistado simples e tão somente pela leitura de literatura. Esse auto-aprendizado pode ser tomado como uma espécie de segunda alfabetização que, para o candidato a “homem de letras”, pode ser chamada de “alfabetização literária” e esta, para os que decidem assumir de fato a atividade literária, nunca mais cessará. Será, para este, uma permanente alfabetização, mesmo depois de superada a condição de candidato, pois em literatura há sempre o que aprender. E foi no ápice desse aprendizado, quando acreditava estar esgotando o meu, que travei contato com a literatura de um dos grandes, a poesia de Alphonsus de Guimaraens Filho.

Conhecia bem a poesia do pai deste poeta, o marianense Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), certamente o maior nome entre os Simbolistas brasileiros, admirado pelos modernistas Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, que sempre lhe devotaram, com inteira justiça, elogiosas palavras. Mas, em 1985, veio-me a notícia de que um outro Alphonsus, o Filho, vivíssimo, acabara de ser agraciado com o hoje tão celebrado Prêmio Jabuti de Poesia, concedido pela Câmara Brasileira do Livro, por seu livro . Foi como uma pancada, uma reguada de mestre: a minha segunda alfabetização iria continuar! E para exemplificar meu espanto, cito apenas um entre os muitos e importantíssimos poemas desse belo livro:

 

O que contemplei de olhos cegos gravou-se para sempre. Inútil arrancar os [olhos.

Inútil atirá-los a um campo de onde retornam os mortos

com o mesmo ar de espanto e insônia. O que toquei com as mãos já idas,

frias, inertes mãos, agora se faz realidade casta e plena.

Inútil atordoá-la. Inútil querer feri-la no seu cerne, à grande esquiva,

se as próprias mãos dos mortos crescem no coto dos braços como inesperadas flores em ramos secos.

Vou-me no ímpeto das águas. Mas de que águas? Flores se dissolvem,

vidas se dissolvem, mortos se dissolvem. E inútil é arrancar os olhos.

Inútil morder a polpa da estrela desmaiada numa encosta onde Deus vacila e [sonha.

 

  • “Realidade Casta e Plena” de Alphonsus de Guimaraens Filho, in (1979-1981), in Só a noite é que amanhece, poemas escolhidos e versos esparsos. Rio de Janeiro, Record, 2003.

 

Uma “polpa da estrela desmaiada” – eis aí o que se amplificou à minha frente, uma poesia feita de metáforas, capazes de nos fazer repensar as possibilidades de construção das metáforas.  E voltei no tempo. Descobri, por exemplo, que Alphonsus Filho já fora agraciado com outros importantes prêmios, em 1941, o Prêmio de Literatura da Fundação Graça Aranha e o Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras, pelo livro Lume de Estrelas. Descobri também, que Lume de Estrelas foi decretado nome de rua, em 1971, na cidade do Rio de Janeiro, no bairro do Méier. Descobri, enfim, mais um poeta com quem aprender. E não foi um aprendizado fácil. A poesia de Alphonsus Filho, embora alguns a entronizem na terceira geração dos Modernistas, trafega numa amálgama gigantesca, e agrega tendências que vão desde o Simbolismo até os dias atuais e, por isso mesmo, tem uma indissolúvel marca pessoal, calcada sob cuidadoso labor e extremo rigor. Não tivesse tido o que ler e só tivesse lido a poesia de Alphonsus Filho, penso que ainda assim teria desejado tornar-me poeta, pois certamente teria, na sua poesia, um mestre com quem aprender. Para além de todos os epítetos, para além da doce graciosidade e grandeza com que tratou temas difíceis como Deus, a Morte e o Amor, a poesia de Alphonsus de Guimaraens Filho é uma aula de labor poético, é uma oficina de poesia feita sob a égide de uma única e generosa pena.

Em 2005, mudei-me para o Rio de Janeiro, mas infelizmente já não pude conhecê-lo pessoalmente, pois o poeta já estava acometido de grave doença. Mas, em dezembro de 2007, a Ponte de Versos, sarau da poeta Thereza Christina Rocque da Motta, realizou uma homenagem a Alphonsus de Guimaraens Filho e, pasmem, Alphonsus ainda estava vivo. Sim, estava, pois já não está mais. Morreu semanas atrás (em 28 de agosto de 2008) e não encontramos, para nosso espanto e indignação, sequer uma nota nos jornais do Rio, cidade onde o poeta viveu a maior parte de sua vida. E agora, já não estranha mais o fato de que, na citada homenagem de 2007, a grande maioria dos poetas presentes sequer soubesse que o poeta estivesse então vivo. Daí, que concluo: se o Brasil não pode mais ser chamado de um “país de analfabetos” (apesar do calamitoso estado da nossa Educação), pode, sim, ser chamado de um “país de analfabetos literários”, uma vez que esse analfabetismo é amplamente exercido exatamente pelos, assim cremos, supra-alfabetizados, os chamados homens de letras: jornalistas, escritores, poetas e todos os outros que adotam adjetivos literários.

A morte de um poeta, homem como os demais, nada nos revela além do muro temporal, que um dia teremos todos de atravessar. Mas a morte de um poeta da grandeza de Alphonsus de Guimaraens Filho, diante do obstinado silêncio dos que trafegam, indecisos, entre a ética e o celebrismo, revela-nos a enorme indigência a que está relegado o papel da literatura em nosso país, onde poucos, além de Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade (e Paulo Coelho, é claro), conseguem atrair a atenção dos veículos de comunicação, ainda que o público em geral nada dessas eminências tenha lido de fato. Aliás, resta-nos conviver com essa estranha sensação de alfabetismo dos homens de letras, que resumem Machado a “…ao vencedor, as batatas”, e Drummond a “No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho…”. Resta-nos conviver também com esse malfazejo resumo de nossos grandes literatos e com a repetição sistemática e desgastante de seus versos e frases, que insistem em pôr naqueles que as pronunciam, uma máscara de homens cultos. Alphonsus de Guimaraens Filho não teve sequer o privilégio dessa papagaiada. E como sei que não haverá quorum na enorme vergonha a que, como homens de letras, estamos obrigados, envergonho-me por todos, e este texto serve de aferição. Pior que viver num país de analfabetos, e analfabetos literários, é resignar-se a viver em um país de pseudocegos, surdos e mudos, que aceitam pagar o enorme preço da cultura do dinheiro e do sucesso e, em seu nome, apagam, com o descaso, os melhores entre nós. Se servir de consolo, não é de hoje que as coisas se dão assim em nossa cultura. Outros grandes, como Jorge de Lima e Murilo Mendes, também ganharam sua parcela de esquecimento e Hilda Hilst, quase nada lida em vida, mereceu, sim, alguns obituários, incluindo o mais concorrido de todos, o do Jornal Nacional, da Rede Globo, mas isto, provavelmente, por Hilda, nos últimos anos de sua vida, ter-se celebrizado mais por seu pornográfico inconformismo, e por falar o que pensava do mundo literário do que por sua literatura.

Por outro lado, Alphonsus de Guimaraens Filho jamais foi dos que se esforçam para estar na mídia, sendo um solitário produtivo e constante. Baseado nas atuais relações do mercado cultural e literário, poderíamos condenar sua atitude refratária à badalação e a estratégias de marketing, como também o fora seu pai, Alphonsus de Guimaraens. Morreu como viveu, na escrita da poesia que, uma vez realizada a tarefa, sabe-se entregue ao desconhecido de todos. Missão cumprida para Alphonsus Filho. Mas como não encontrei a tal nota que, penso, precisaria ter sido dada (ainda que isso em nada mudasse nosso analfabetismo literário), publico aqui o obituário:

 

ALPHONSUS DE GUIMARAENS FILHO

Bom filho, marido, pai e avô.

Grande poeta entre os grandes.

3/06/1918 – 28/08/2008

 

Os que chegaram até aqui, agora o sabem, Alphonsus de Guimaraens Filho está morto. Mas nós sabemos que sua morte, como a de tantos antes dele, como a de muitos que ainda virão, está perdida para a maioria de nós, analfabetos literários, que não choramos nem a morte do homem, nem a do poeta e, portanto, não teremos o trabalho de lembrá-lo ou de esquecê-lo. Resta-me crer que o próprio Alphonsus de Guimaraens Filho o sabia com antecedência:

 

Não seja por isto, noite.

Melhor é que desças. Com toda a tua treva.

E entre nós – embora ressabiados e feridos – até que poderás ficar à vontade.

 

Pois de qualquer modo há em ti um frêmito vôo informulado,

grande ave de asas cegas…

 

Somos teus, como sabes, todos te pertencemos, constrangidos embora.

Mas não seja por isto.

A casa é tua – como nestes domínios é hábito dizer aos amigos –

e poderás ficar à vontade.

 

  • “À Vontade” de Alphonsus de Guimaraens Filho, in Transeunte (1963-1968), in Só a noite é que amanhece, poemas escolhidos e versos esparsos. Rio de Janeiro, Record, 2003.  

     


    Bebedores – Iluminura do copista de Seckau (1230), Carmina Burana.

    Até poucas décadas atrás, qualquer indivíduo que vislumbrasse a idéia de devotar-se à escritura literária, sabia, ou tinha por certo, que eram mínimas as possibilidades de se obter algum reconhecimento em vida, fosse pela então enorme dificuldade de publicação, fosse pela impenetrabilidade das esferas da crítica literária, ou pela pouco divisável senda da distribuição livresca, ainda feita de modo artesanal até o início dos anos 90. E nascíamos, assim, escritores com essa máxima visão da possibilidade de um reconhecimento post-mortem, como se em nós estivesse incutido uma verdade aparentemente absoluta: aquela que diz, que tudo o que é bom e útil para a humanidade não pode permanecer na obscuridade para sempre. Mas estávamos enganados, todos. Tanto os poucos que obtiveram algum reconhecimento no transcorrer do caminho, como os que ainda ocupam a ante-sala do purgatório editorial e midiático da literatura. Os que obtiveram algum reconhecimento público estão hoje mais ou menos esquecidos, muito provavelmente por não terem se adaptado às novas ideologias de Mercado, que vieram alterar os rumos do ideário literário no século XXI; e os que jamais sairam da periferia da notoriedade estão hoje quase que definitivamente excluídos do grande baile do reconhecimento público, e até mesmo do reconhecimento post-mortem e, desses últimos, uma grande maioria foi parar nas academias literárias das sociedades dos amigos de bairros ou em pífias entidades de escritores, onde se transformaram em massa de manobra de intelectuais inescrupulosos, com vistas a algum cargo público, ou de algum endinheirado disposto a comandar e promover uma espécie de lumpesinato literário.

    A idéia de um possível reconhecimento literário post-mortem não é, nem mesmo de longe, uma idéia da modernidade. O assunto foi abordado pela primeira vez por volta do ano 1160, em plena Idade Média, pelas mãos de um poeta goliardo, possivelmente de origem germânica, chamado Archipoeta, que teve seus versos preservados pela mão de um copista da Abadia de Seckau, Áustria (cerca de 1230), num manuscrito que mais tarde veio a ser descoberto, em 1803, em Benediktbeurn, sul da atual Alemanha, e que tornou-se mundialmente conhecido como Carmina Burana, um coletivo de poemas goliardos, também chamados “clérigos vagantes”, do qual Carl Orff fez uso para compor sua cantata cênica, de mesmo nome, e nela incluindo um trecho do Confessio, poema atribuido ao Archipoeta, onde encontramos estas estrofes significavas:

     

    Os poetas se afastam dos lugares públicos

    e, solitários, escolhem os esconderijos,

    onde estudam e labutam intensamente sob a luz de velas,

    mas só na posteridade terão uma obra reconhecida.

     

    Os coros de poetas seguem o jejum e a abstinência,

    fogem das disputas públicas e dos lugares tumultuados,

    e para fazer uma obra que não morra,

    morrem estafados de estudo e labor.

     

    Como se pode ver, e ler, o assunto post-mortem foi originalmente abordado por quem de fato tinha razões para isso, pois vivia num mundo onde a Igreja de Roma ainda podia dar-se os ares de soberana absoluta, e o Archipoeta, excetuando sua notória entrega à libertinagem e ao consumo de vinho, estava inexoravelmente imerso nessa verdade cristã que, entre outras coisas, prometia (e ainda promete) aos justos o Paraíso, e, assim, esse reconhecimento literário post-mortem nada mais seria do que essa promessa de redenção, sobre a qual a Igreja Católica erigiu o seu poder e com o qual influenciou gerações e mais gerações de escritores ocidentais, até fins dos anos 50 e início dos 60, quando, com o florescimento da Contra-Cultura, evidenciam-se as condições histórico-políticas-econômicas, que culminarão com o término da Guerra Fria e o início da aceleração das relações entre a cultura e a economia de mercado.

    Há hoje quem diga que as relações da cultura com a economia de mercado é um fenômeno do nosso presente histórico. Mas isto é um engano. Essas relações sempre existiram, até mesmo quando a produção de mercadorias, como a conhecemos hoje, não estava em voga. A mais famosa obra de Virgílio, a Eneida, foi escrita sob a mão de ferro do Imperador Augusto, que obrigou o poeta das Églogas a concluí-la quando este, nos momentos finais de sua existência, queria jogá-la ao fogo. É possível que Virgílio tenha se dado conta que, tendo ascendido à proteção de Mecenas e Augusto, donos de todo o trigo que fazia o pão dos romanos, sua obra estava a serviço de um imperador que precisava de uma base histórico/mitológica para entronizar sua herança política. E a Eneida, poema épico que canta a história da fundação de Roma e estabelece a as bases mitológicas sobre a qual os romanos construiram sua glória guerreira, foi escrita a pedido do próprio imperador que, se não deseja ter com ela um lucro financeiro, como é comum em nosso presente histórico, desejava o lucro político, a base cultural do exercício do seu poder temporal. Augusto sabia que o preço do seu trigo não iria subir por causa da Eneida, mas sabia que ela lhe daria a justificativa para impor com mão de ferro seu poder sobre os romanos e seu Senado corrupto. Mas não será demasiado lembrar que entre as atribuições do poder de Augusto estava a de determinar o preço do trigo. Se na Era Augusta ainda não existia uma, assim chamada, economia de mercado, existia algo que é muito semelhante, existia a economia de poder.

    Quanto ao Archipoeta, o primeiro a tornar clara a idéia de uma glória literária post-mortem, é preciso lembrar que o fenômeno da poesia goliarda se deu concomitantemente com o fenômeno da Usura, como o sistema de troca que dará início à Era do Capital, que, mal começa, tira à poesia o antigo status de bem relacionada com as classes poderosas e o dá aos pintores e arquitetos e, mais à frente, aos chamados intelectuais, que fundarão as primeiras universidades européias, cuja evolução será notadamente marcada por suas relações com as classes dominantes, os gestores da produção de bens de consumo até o início da Era das Revoluções, na Inglaterra, na França, e depois em toda a Europa. Talvez o Archiopoeta tenha antevisto, como é próprio dos poetas antever, que a escolha da poesia como manifestação artística o colocava fora das relações da cultura com a economia de mercado de então, restando-lhe assim a possibilidade de um reconhecimento post-mortem. O fato é que a idéia colou e, mesmo indiretamente, chegou até os escritores e poetas do século XX, entre os quais também é corrente a idéia de que a arte é espaço utópico, refúgio, contestação, ou transgressão do real. Assim como o reconhecimento post-mortem é uma idéia nascida de um artista em busca do reconhecimento de sua arte, a idéia da arte como espaço utópico e de cotestação etc, também é uma idéia própria dos artistas e só na mente deles, e de alguns poucos, existe. Aliás, essas idéias são mais que necessárias para os próprios artistas, pois fornecem a eles a base espiritual sobre a qual podem justificar seus esforços, estranhezas, manias e loucuras, sejam ou não bons de fato, sejam ou não reconhecidos.

    Uma outra idéia que corre entre os artistas, mas essa bem menos divulgada, visto que é mantida como um sigiloso desejo, é a de que, tudo bem um reconhecimento post-mortem, mas é o reconhecimento imediato que permite que o artista viva (financeiramente) de sua própria arte. A maioria absoluta alimenta esta idéia/desejo, sem se dar conta que o reconhecimento em vida pode ou não dar alguma substância financeira para o artista, e isso depende do quanto sua arte bem se relaciona com a economia de mercado e o quanto essa economia está sintonizada com os anseios das massas. Excetuando compositores de música, pop stars, e uma quantidade mínima de artistas plásticos bem sintonizados com as tendências da moda e da decoração, a grande maioria dos artistas vive de outras atividades que não as da sua arte. Uma verdadeira massa de artistas vive imiscuída entre os comuns seres humanos desse mundo, e são vendedores, professores, funcionários públicos, publicitários, donos de botecos etc, e entre esses artistas, os poetas e escritores são a maioria. E essa massa de desconhecidos aumenta na mesma proporção em que cresce e se torna mais promíscua as relações da cultura com a economia de mercado. Como a nos dizer que o que alimenta o desejo de se tornar artista, hoje, nada mais é do que o desejo de ser aceito socialmente, ter o reconhecimento, e ter acesso a uma parte, mesmo se pequena, da cultura do lucro.

    Está na hora de admitirmos que, concomitante com a economia de mercado, existe uma MPB de mercado, umas artes-plásticas de mercado, um teatro de mercado, uma literatura de mercado, e por aí vai.

    Não sei se este estado de coisas é passageiro ou não, se é inexorável ou não, mas sei que idéias como a do reconhecimento post-mortem e a de que a arte é o exercício de um espaço utópico e de contestação já não nos define mais, hoje, como artistas. É preciso redefinir nossa posição diante desses inequívocos fatos e, se possível, reordenar nossas palavras e idéias para voltar, quem sabe, a poder pronunciar a palavra arte com algum senso de direção. A cultura e a arte nunca foram, como crêem alguns, o lugar onde negamos ou nos refugiamos das duras realidades da luta pela sobrevivência, senão para os próprios artistas. A cultura e a arte, em verdade, sempre estiveram na base de todos os fenômenos históricos transformadores, incluindo os econômicos. Mal nos demos conta ainda: mas a queda do Muro de Berlim também pode bem representar o início da queda do muro desse refúgio, onde alguns poucos artistas puderam, até então, se esconder das duras lutas pela sobrevivência, e o que agora parece, para esses mesmos poucos, ser o fim da arte, pode não passar de ser o começo de uma transformação, ainda que neste exato momento essa transformação não seja propriamente divisável e seus contornos se expressem num baixo nível vibratório, neo-narcísico, uterino e quase nada ético.

    Para onde vamos? Decididamente não sei! Sei que ter uma vida dedicada somente ao dinheiro é muito desumanizador. E sei também que aquela idéia de se manter agarrado à velha e poética máquina de escrever já era. Mas o fato de já estarmos agora discutindo questões culturais, como o que é arte hoje?, ou qual é reconhecimento pelo qual devemos nos bater?, mostra que essa cultura do dinheiro e do lucro já está no limite e é no limite que tudo se dissolve e volta a ser caos. Como bem ensinou Hesíodo, na sua Teogonia, tudo principia no caos. Pessoalmente acho que já é possível sentir a aproximação dessa noite disforme e acho que logo estaremos, culturalmente falando, voltando às cavernas e reiniciando o caminho, talvez até mesmo fazendo algumas melhorias no processo civilizatório, ainda que o façamos portando belos celulares e nos comunicando através de teclados.

    Foi Píndaro, poeta grego do século V a.C., que colheu em vida e na posteridade todas as glórias literárias possíveis, quem nos alertou para essa essência da vida, onde só o viver cura a vida e a torna plenitude:

     

    Ó, minha alma, não aspires

    a uma existência de imortal,

    mas goza plenamente

    tudo o que esteja ao teu alcance.

    Píndaro (522-448 a.C.) 

     




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