Caros Amigos, bem que o Octavio Paz lembrou: “… a época moderna é a da aceleração do tempo histórico… Aceleração é fusão: todos os tempos e todos os espaços confluem em um aqui e agora”. Nada representa melhor este estado de coisas do que a tecnologia atual: internet, banda larga, imagens de alta definição, telefonia celular etc. Mas isso não tem nada a ver com educação, nem com maior ou menor número de leitores.

Na Antiguidade, e até a Alta Idade Média, a tecnologia do livro era a cópia. Em Roma, Constantinopla e Atenas existiam empresas especializadas em fazer cópias de monuscritos e estes circulavam intensamente pelos portos do Mediterrâneo. Na Biblioteca de Alexandria, a pessoa podia obter, em poucos dias, a cópia de um livro que desejasse. A tecnologia do livro sempre esteve a serviço da demanda de mercado, nunca a serviço da educação.

O aumeto populacional, desde os tempos antigos, sempre previu um aumento do número de leitores e um igual aumento de não-leitores. A tecnologia inventada por Gutenberg também visava ao aumento da demanda, principalmente por bíblias. O aumento populacional e a cristianização da Europa demandaram a melhoria tecnológica implementada pelo inventor alemão. E daí para frente, as novas tecnologias do livro visaram o sempre crescente aumento de demanda, nunca os aspectos educacionais. Somente no século XX é que surgiu um ramo da indústria do livro voltado para estudantes, mas girando sempre em torno da publicação de cartilhas. É claro que a coisa evoluiu. O aumento populacional implica no aumento de escolas e assim aumenta a demanda por cartilhas. Mas isso não tem nada a ver com educação ou com a formação de leitores de livros. Educar pessoas não implica necessariamente em formar novos leitores. Ler é uma descoberta e uma escolha. É quase um modo de vida. Mas existem outros modos de vida, assim como existem leitores e não-leitores. Estranhamente, o consumo de livros no Brasil só tem aumentado. Mas, ao que tudo indica, isso não tem nada a ver com educação. E muito menos tem a ver com a formação de novos leitores, e menos ainda com as novas tecnologias e os novos suportes virtuais do livro. Aparentemente, o número de leitores continua, proporcionalmente, e com pouca variação, o mesmo de sempre.

A nova tecnologia nunca influenciou, e as novas não influenciarão, o aumento ou a diminuição dos leitores de livros; nem a educação, como é hoje, o fará. A tecnologia, a educação e a indústria do livro, estão a serviço do aumento da demanda, dos novos meios de produção e da obtenção do lucro. Ou seja, enquanto a economia de mercado não se propuser a por a leitura de livros no rol das ações que estimulem o consumo e a geração de riqueza, não assistiremos ao aumento desse tão debatido assunto, que é o aumento dos leitores de livros. Não há saída aparente. Talvez um dia cheguemos ao ponto em que poderemos abandonar a metodologia atual e voltar para a caverna. Lá, na caverna, munidos de celulares, e computadores de mão, e GPSs, e tudo o mais  que a tecnologia tem de bom e prático, reiniciaremos o caminho da educação, através de um método cuja base essencial seja a leitura de livros. Mas mesmo que o fizéssemos, ainda assim teríamos de lançar mão de uma enorme esperança: a esperança de que o hábito de ler livros, desenvolvido nesta nova educação, se torne mais forte que as decisões individuais e a premente luta pela sobrevivência.


Na vida dos que se aventuram a exercer atividade voltada para o mundo das Letras, há um momento crítico em que o candidato a poeta, prosador, cronista, filósofo, ensaísta, enfim, qualquer um dentro do amplo espectro de adjetivos que compõem o universo da literatura, precisa sabatinar-se e, antes, impor-se uma espécie de auto-aprendizado, que é conquistado simples e tão somente pela leitura de literatura. Esse auto-aprendizado pode ser tomado como uma espécie de segunda alfabetização que, para o candidato a “homem de letras”, pode ser chamada de “alfabetização literária” e esta, para os que decidem assumir de fato a atividade literária, nunca mais cessará. Será, para este, uma permanente alfabetização, mesmo depois de superada a condição de candidato, pois em literatura há sempre o que aprender. E foi no ápice desse aprendizado, quando acreditava estar esgotando o meu, que travei contato com a literatura de um dos grandes, a poesia de Alphonsus de Guimaraens Filho.

Conhecia bem a poesia do pai deste poeta, o marianense Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), certamente o maior nome entre os Simbolistas brasileiros, admirado pelos modernistas Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, que sempre lhe devotaram, com inteira justiça, elogiosas palavras. Mas, em 1985, veio-me a notícia de que um outro Alphonsus, o Filho, vivíssimo, acabara de ser agraciado com o hoje tão celebrado Prêmio Jabuti de Poesia, concedido pela Câmara Brasileira do Livro, por seu livro . Foi como uma pancada, uma reguada de mestre: a minha segunda alfabetização iria continuar! E para exemplificar meu espanto, cito apenas um entre os muitos e importantíssimos poemas desse belo livro:

 

O que contemplei de olhos cegos gravou-se para sempre. Inútil arrancar os [olhos.

Inútil atirá-los a um campo de onde retornam os mortos

com o mesmo ar de espanto e insônia. O que toquei com as mãos já idas,

frias, inertes mãos, agora se faz realidade casta e plena.

Inútil atordoá-la. Inútil querer feri-la no seu cerne, à grande esquiva,

se as próprias mãos dos mortos crescem no coto dos braços como inesperadas flores em ramos secos.

Vou-me no ímpeto das águas. Mas de que águas? Flores se dissolvem,

vidas se dissolvem, mortos se dissolvem. E inútil é arrancar os olhos.

Inútil morder a polpa da estrela desmaiada numa encosta onde Deus vacila e [sonha.

 

  • “Realidade Casta e Plena” de Alphonsus de Guimaraens Filho, in (1979-1981), in Só a noite é que amanhece, poemas escolhidos e versos esparsos. Rio de Janeiro, Record, 2003.

 

Uma “polpa da estrela desmaiada” – eis aí o que se amplificou à minha frente, uma poesia feita de metáforas, capazes de nos fazer repensar as possibilidades de construção das metáforas.  E voltei no tempo. Descobri, por exemplo, que Alphonsus Filho já fora agraciado com outros importantes prêmios, em 1941, o Prêmio de Literatura da Fundação Graça Aranha e o Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras, pelo livro Lume de Estrelas. Descobri também, que Lume de Estrelas foi decretado nome de rua, em 1971, na cidade do Rio de Janeiro, no bairro do Méier. Descobri, enfim, mais um poeta com quem aprender. E não foi um aprendizado fácil. A poesia de Alphonsus Filho, embora alguns a entronizem na terceira geração dos Modernistas, trafega numa amálgama gigantesca, e agrega tendências que vão desde o Simbolismo até os dias atuais e, por isso mesmo, tem uma indissolúvel marca pessoal, calcada sob cuidadoso labor e extremo rigor. Não tivesse tido o que ler e só tivesse lido a poesia de Alphonsus Filho, penso que ainda assim teria desejado tornar-me poeta, pois certamente teria, na sua poesia, um mestre com quem aprender. Para além de todos os epítetos, para além da doce graciosidade e grandeza com que tratou temas difíceis como Deus, a Morte e o Amor, a poesia de Alphonsus de Guimaraens Filho é uma aula de labor poético, é uma oficina de poesia feita sob a égide de uma única e generosa pena.

Em 2005, mudei-me para o Rio de Janeiro, mas infelizmente já não pude conhecê-lo pessoalmente, pois o poeta já estava acometido de grave doença. Mas, em dezembro de 2007, a Ponte de Versos, sarau da poeta Thereza Christina Rocque da Motta, realizou uma homenagem a Alphonsus de Guimaraens Filho e, pasmem, Alphonsus ainda estava vivo. Sim, estava, pois já não está mais. Morreu semanas atrás (em 28 de agosto de 2008) e não encontramos, para nosso espanto e indignação, sequer uma nota nos jornais do Rio, cidade onde o poeta viveu a maior parte de sua vida. E agora, já não estranha mais o fato de que, na citada homenagem de 2007, a grande maioria dos poetas presentes sequer soubesse que o poeta estivesse então vivo. Daí, que concluo: se o Brasil não pode mais ser chamado de um “país de analfabetos” (apesar do calamitoso estado da nossa Educação), pode, sim, ser chamado de um “país de analfabetos literários”, uma vez que esse analfabetismo é amplamente exercido exatamente pelos, assim cremos, supra-alfabetizados, os chamados homens de letras: jornalistas, escritores, poetas e todos os outros que adotam adjetivos literários.

A morte de um poeta, homem como os demais, nada nos revela além do muro temporal, que um dia teremos todos de atravessar. Mas a morte de um poeta da grandeza de Alphonsus de Guimaraens Filho, diante do obstinado silêncio dos que trafegam, indecisos, entre a ética e o celebrismo, revela-nos a enorme indigência a que está relegado o papel da literatura em nosso país, onde poucos, além de Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade (e Paulo Coelho, é claro), conseguem atrair a atenção dos veículos de comunicação, ainda que o público em geral nada dessas eminências tenha lido de fato. Aliás, resta-nos conviver com essa estranha sensação de alfabetismo dos homens de letras, que resumem Machado a “…ao vencedor, as batatas”, e Drummond a “No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho…”. Resta-nos conviver também com esse malfazejo resumo de nossos grandes literatos e com a repetição sistemática e desgastante de seus versos e frases, que insistem em pôr naqueles que as pronunciam, uma máscara de homens cultos. Alphonsus de Guimaraens Filho não teve sequer o privilégio dessa papagaiada. E como sei que não haverá quorum na enorme vergonha a que, como homens de letras, estamos obrigados, envergonho-me por todos, e este texto serve de aferição. Pior que viver num país de analfabetos, e analfabetos literários, é resignar-se a viver em um país de pseudocegos, surdos e mudos, que aceitam pagar o enorme preço da cultura do dinheiro e do sucesso e, em seu nome, apagam, com o descaso, os melhores entre nós. Se servir de consolo, não é de hoje que as coisas se dão assim em nossa cultura. Outros grandes, como Jorge de Lima e Murilo Mendes, também ganharam sua parcela de esquecimento e Hilda Hilst, quase nada lida em vida, mereceu, sim, alguns obituários, incluindo o mais concorrido de todos, o do Jornal Nacional, da Rede Globo, mas isto, provavelmente, por Hilda, nos últimos anos de sua vida, ter-se celebrizado mais por seu pornográfico inconformismo, e por falar o que pensava do mundo literário do que por sua literatura.

Por outro lado, Alphonsus de Guimaraens Filho jamais foi dos que se esforçam para estar na mídia, sendo um solitário produtivo e constante. Baseado nas atuais relações do mercado cultural e literário, poderíamos condenar sua atitude refratária à badalação e a estratégias de marketing, como também o fora seu pai, Alphonsus de Guimaraens. Morreu como viveu, na escrita da poesia que, uma vez realizada a tarefa, sabe-se entregue ao desconhecido de todos. Missão cumprida para Alphonsus Filho. Mas como não encontrei a tal nota que, penso, precisaria ter sido dada (ainda que isso em nada mudasse nosso analfabetismo literário), publico aqui o obituário:

 

ALPHONSUS DE GUIMARAENS FILHO

Bom filho, marido, pai e avô.

Grande poeta entre os grandes.

3/06/1918 – 28/08/2008

 

Os que chegaram até aqui, agora o sabem, Alphonsus de Guimaraens Filho está morto. Mas nós sabemos que sua morte, como a de tantos antes dele, como a de muitos que ainda virão, está perdida para a maioria de nós, analfabetos literários, que não choramos nem a morte do homem, nem a do poeta e, portanto, não teremos o trabalho de lembrá-lo ou de esquecê-lo. Resta-me crer que o próprio Alphonsus de Guimaraens Filho o sabia com antecedência:

 

Não seja por isto, noite.

Melhor é que desças. Com toda a tua treva.

E entre nós – embora ressabiados e feridos – até que poderás ficar à vontade.

 

Pois de qualquer modo há em ti um frêmito vôo informulado,

grande ave de asas cegas…

 

Somos teus, como sabes, todos te pertencemos, constrangidos embora.

Mas não seja por isto.

A casa é tua – como nestes domínios é hábito dizer aos amigos –

e poderás ficar à vontade.

 

  • “À Vontade” de Alphonsus de Guimaraens Filho, in Transeunte (1963-1968), in Só a noite é que amanhece, poemas escolhidos e versos esparsos. Rio de Janeiro, Record, 2003.  

     


    Bebedores – Iluminura do copista de Seckau (1230), Carmina Burana.

    Até poucas décadas atrás, qualquer indivíduo que vislumbrasse a idéia de devotar-se à escritura literária, sabia, ou tinha por certo, que eram mínimas as possibilidades de se obter algum reconhecimento em vida, fosse pela então enorme dificuldade de publicação, fosse pela impenetrabilidade das esferas da crítica literária, ou pela pouco divisável senda da distribuição livresca, ainda feita de modo artesanal até o início dos anos 90. E nascíamos, assim, escritores com essa máxima visão da possibilidade de um reconhecimento post-mortem, como se em nós estivesse incutido uma verdade aparentemente absoluta: aquela que diz, que tudo o que é bom e útil para a humanidade não pode permanecer na obscuridade para sempre. Mas estávamos enganados, todos. Tanto os poucos que obtiveram algum reconhecimento no transcorrer do caminho, como os que ainda ocupam a ante-sala do purgatório editorial e midiático da literatura. Os que obtiveram algum reconhecimento público estão hoje mais ou menos esquecidos, muito provavelmente por não terem se adaptado às novas ideologias de Mercado, que vieram alterar os rumos do ideário literário no século XXI; e os que jamais sairam da periferia da notoriedade estão hoje quase que definitivamente excluídos do grande baile do reconhecimento público, e até mesmo do reconhecimento post-mortem e, desses últimos, uma grande maioria foi parar nas academias literárias das sociedades dos amigos de bairros ou em pífias entidades de escritores, onde se transformaram em massa de manobra de intelectuais inescrupulosos, com vistas a algum cargo público, ou de algum endinheirado disposto a comandar e promover uma espécie de lumpesinato literário.

    A idéia de um possível reconhecimento literário post-mortem não é, nem mesmo de longe, uma idéia da modernidade. O assunto foi abordado pela primeira vez por volta do ano 1160, em plena Idade Média, pelas mãos de um poeta goliardo, possivelmente de origem germânica, chamado Archipoeta, que teve seus versos preservados pela mão de um copista da Abadia de Seckau, Áustria (cerca de 1230), num manuscrito que mais tarde veio a ser descoberto, em 1803, em Benediktbeurn, sul da atual Alemanha, e que tornou-se mundialmente conhecido como Carmina Burana, um coletivo de poemas goliardos, também chamados “clérigos vagantes”, do qual Carl Orff fez uso para compor sua cantata cênica, de mesmo nome, e nela incluindo um trecho do Confessio, poema atribuido ao Archipoeta, onde encontramos estas estrofes significavas:

     

    Os poetas se afastam dos lugares públicos

    e, solitários, escolhem os esconderijos,

    onde estudam e labutam intensamente sob a luz de velas,

    mas só na posteridade terão uma obra reconhecida.

     

    Os coros de poetas seguem o jejum e a abstinência,

    fogem das disputas públicas e dos lugares tumultuados,

    e para fazer uma obra que não morra,

    morrem estafados de estudo e labor.

     

    Como se pode ver, e ler, o assunto post-mortem foi originalmente abordado por quem de fato tinha razões para isso, pois vivia num mundo onde a Igreja de Roma ainda podia dar-se os ares de soberana absoluta, e o Archipoeta, excetuando sua notória entrega à libertinagem e ao consumo de vinho, estava inexoravelmente imerso nessa verdade cristã que, entre outras coisas, prometia (e ainda promete) aos justos o Paraíso, e, assim, esse reconhecimento literário post-mortem nada mais seria do que essa promessa de redenção, sobre a qual a Igreja Católica erigiu o seu poder e com o qual influenciou gerações e mais gerações de escritores ocidentais, até fins dos anos 50 e início dos 60, quando, com o florescimento da Contra-Cultura, evidenciam-se as condições histórico-políticas-econômicas, que culminarão com o término da Guerra Fria e o início da aceleração das relações entre a cultura e a economia de mercado.

    Há hoje quem diga que as relações da cultura com a economia de mercado é um fenômeno do nosso presente histórico. Mas isto é um engano. Essas relações sempre existiram, até mesmo quando a produção de mercadorias, como a conhecemos hoje, não estava em voga. A mais famosa obra de Virgílio, a Eneida, foi escrita sob a mão de ferro do Imperador Augusto, que obrigou o poeta das Églogas a concluí-la quando este, nos momentos finais de sua existência, queria jogá-la ao fogo. É possível que Virgílio tenha se dado conta que, tendo ascendido à proteção de Mecenas e Augusto, donos de todo o trigo que fazia o pão dos romanos, sua obra estava a serviço de um imperador que precisava de uma base histórico/mitológica para entronizar sua herança política. E a Eneida, poema épico que canta a história da fundação de Roma e estabelece a as bases mitológicas sobre a qual os romanos construiram sua glória guerreira, foi escrita a pedido do próprio imperador que, se não deseja ter com ela um lucro financeiro, como é comum em nosso presente histórico, desejava o lucro político, a base cultural do exercício do seu poder temporal. Augusto sabia que o preço do seu trigo não iria subir por causa da Eneida, mas sabia que ela lhe daria a justificativa para impor com mão de ferro seu poder sobre os romanos e seu Senado corrupto. Mas não será demasiado lembrar que entre as atribuições do poder de Augusto estava a de determinar o preço do trigo. Se na Era Augusta ainda não existia uma, assim chamada, economia de mercado, existia algo que é muito semelhante, existia a economia de poder.

    Quanto ao Archipoeta, o primeiro a tornar clara a idéia de uma glória literária post-mortem, é preciso lembrar que o fenômeno da poesia goliarda se deu concomitantemente com o fenômeno da Usura, como o sistema de troca que dará início à Era do Capital, que, mal começa, tira à poesia o antigo status de bem relacionada com as classes poderosas e o dá aos pintores e arquitetos e, mais à frente, aos chamados intelectuais, que fundarão as primeiras universidades européias, cuja evolução será notadamente marcada por suas relações com as classes dominantes, os gestores da produção de bens de consumo até o início da Era das Revoluções, na Inglaterra, na França, e depois em toda a Europa. Talvez o Archiopoeta tenha antevisto, como é próprio dos poetas antever, que a escolha da poesia como manifestação artística o colocava fora das relações da cultura com a economia de mercado de então, restando-lhe assim a possibilidade de um reconhecimento post-mortem. O fato é que a idéia colou e, mesmo indiretamente, chegou até os escritores e poetas do século XX, entre os quais também é corrente a idéia de que a arte é espaço utópico, refúgio, contestação, ou transgressão do real. Assim como o reconhecimento post-mortem é uma idéia nascida de um artista em busca do reconhecimento de sua arte, a idéia da arte como espaço utópico e de cotestação etc, também é uma idéia própria dos artistas e só na mente deles, e de alguns poucos, existe. Aliás, essas idéias são mais que necessárias para os próprios artistas, pois fornecem a eles a base espiritual sobre a qual podem justificar seus esforços, estranhezas, manias e loucuras, sejam ou não bons de fato, sejam ou não reconhecidos.

    Uma outra idéia que corre entre os artistas, mas essa bem menos divulgada, visto que é mantida como um sigiloso desejo, é a de que, tudo bem um reconhecimento post-mortem, mas é o reconhecimento imediato que permite que o artista viva (financeiramente) de sua própria arte. A maioria absoluta alimenta esta idéia/desejo, sem se dar conta que o reconhecimento em vida pode ou não dar alguma substância financeira para o artista, e isso depende do quanto sua arte bem se relaciona com a economia de mercado e o quanto essa economia está sintonizada com os anseios das massas. Excetuando compositores de música, pop stars, e uma quantidade mínima de artistas plásticos bem sintonizados com as tendências da moda e da decoração, a grande maioria dos artistas vive de outras atividades que não as da sua arte. Uma verdadeira massa de artistas vive imiscuída entre os comuns seres humanos desse mundo, e são vendedores, professores, funcionários públicos, publicitários, donos de botecos etc, e entre esses artistas, os poetas e escritores são a maioria. E essa massa de desconhecidos aumenta na mesma proporção em que cresce e se torna mais promíscua as relações da cultura com a economia de mercado. Como a nos dizer que o que alimenta o desejo de se tornar artista, hoje, nada mais é do que o desejo de ser aceito socialmente, ter o reconhecimento, e ter acesso a uma parte, mesmo se pequena, da cultura do lucro.

    Está na hora de admitirmos que, concomitante com a economia de mercado, existe uma MPB de mercado, umas artes-plásticas de mercado, um teatro de mercado, uma literatura de mercado, e por aí vai.

    Não sei se este estado de coisas é passageiro ou não, se é inexorável ou não, mas sei que idéias como a do reconhecimento post-mortem e a de que a arte é o exercício de um espaço utópico e de contestação já não nos define mais, hoje, como artistas. É preciso redefinir nossa posição diante desses inequívocos fatos e, se possível, reordenar nossas palavras e idéias para voltar, quem sabe, a poder pronunciar a palavra arte com algum senso de direção. A cultura e a arte nunca foram, como crêem alguns, o lugar onde negamos ou nos refugiamos das duras realidades da luta pela sobrevivência, senão para os próprios artistas. A cultura e a arte, em verdade, sempre estiveram na base de todos os fenômenos históricos transformadores, incluindo os econômicos. Mal nos demos conta ainda: mas a queda do Muro de Berlim também pode bem representar o início da queda do muro desse refúgio, onde alguns poucos artistas puderam, até então, se esconder das duras lutas pela sobrevivência, e o que agora parece, para esses mesmos poucos, ser o fim da arte, pode não passar de ser o começo de uma transformação, ainda que neste exato momento essa transformação não seja propriamente divisável e seus contornos se expressem num baixo nível vibratório, neo-narcísico, uterino e quase nada ético.

    Para onde vamos? Decididamente não sei! Sei que ter uma vida dedicada somente ao dinheiro é muito desumanizador. E sei também que aquela idéia de se manter agarrado à velha e poética máquina de escrever já era. Mas o fato de já estarmos agora discutindo questões culturais, como o que é arte hoje?, ou qual é reconhecimento pelo qual devemos nos bater?, mostra que essa cultura do dinheiro e do lucro já está no limite e é no limite que tudo se dissolve e volta a ser caos. Como bem ensinou Hesíodo, na sua Teogonia, tudo principia no caos. Pessoalmente acho que já é possível sentir a aproximação dessa noite disforme e acho que logo estaremos, culturalmente falando, voltando às cavernas e reiniciando o caminho, talvez até mesmo fazendo algumas melhorias no processo civilizatório, ainda que o façamos portando belos celulares e nos comunicando através de teclados.

    Foi Píndaro, poeta grego do século V a.C., que colheu em vida e na posteridade todas as glórias literárias possíveis, quem nos alertou para essa essência da vida, onde só o viver cura a vida e a torna plenitude:

     

    Ó, minha alma, não aspires

    a uma existência de imortal,

    mas goza plenamente

    tudo o que esteja ao teu alcance.

    Píndaro (522-448 a.C.)