O NASCIMENTO DOS POETAS E A GÊNESE DA POESIA

20dez09

Você não sabe que é poeta até que alguém, ou algo, lhe diga isso. E também não começa a escrever poemas do dia para a noite, por decisão consciente e autodeterminada. Não é como frequentar a escola e receber um diploma que o habilita a tal feito, embora seja minimamente desejável ser alfabetizado. Há, no início da trajetória de todo poeta, uma enorme quantidade de acasos, coincidências, sincronicidades e, também, uma boa dose de vivência emocional, na vocação afetiva e no pendor amoroso, já que o amor, ou a falta dele, constitui-se no primeiro motor da nossa percepção de mundo. É algo que acontece sem que haja intenção de que aconteça. Enfim, ser poeta não é dom, mas exige um dom, que é o de se deixar perpetrar e ser conduzido pelo poético. E é matéria que só se pode aprender depois de perpetrada e aceita.

Dos que são, por assim dizer, tocados pelo poético, poucos são aqueles que se lançam no exercício da poesia. Pois, uma vez tendo se perpetrado, o poético deixa ao indivíduo a liberdade de escolha, pois o poético não é característica exclusiva da poesia, e pode se manifestar nas mais diversas áreas do nosso fazer. Já com a poesia, é diferente. A poesia não existe separada do seu correlato físico, que é o poema. Constituir o poético em um poema é o que chamamos de poesia, e como esta não existe separada do poema, pede ao poeta vontade, empenho e aprendizado, pois construir o poema exige certo domínio técnico. O poeta é aquele que, tocado pelo poético, fez a clara escolha de manifestá-lo através da poesia e de realizá-lo fisicamente no poema, e é isto que o diferencia dos demais artífices deste mundo, sejam eles poéticos ou não. Em resumo, podemos dizer que o poético é o coletivo, se não todo ele, ao menos a tribo circundante, e a poesia, o conhecimento de como realizá-lo em palavras no poema, que é pura e tão somente a função do poeta dentro da sua tribo.

E tudo isto para dizer que o nascimento dos poetas não se dá naquele momento em que o indivíduo, saindo do útero materno, sente pela primeira vez a aspereza do ar invadir suas vias aéreas. O nascimento dos poetas acontece mais tarde, depois que ser humano já experimentou, minimamente, certa quantidade de alegrias e tristezas, de carícias e dores, e já tendo sido admitido em sua tribo humana, e adquirido certa massa corporal, e se iniciado nas aprendizagens mundanas e religiosas, expõe-se, assim, à possibilidade de vir a ser tocado por esse ente coletivo, que é o poético. E o modo como isto se dá, na prática, varia de acordo com a quantidade de tipos humanos, e suas geografias, e suas línguas e sociedades. Duas histórias para representar esses nascimentos.

Conta-se que Nelson Mandela, antes de se tornar mundialmente conhecido por sua luta contra o apartheid, ainda vivendo em Thembo, na região central da África do Sul, ouvia poemas ancestrais, que contavam as lutas travadas por sua tribo em tempos remotos. Depois de ter sido libertado da prisão e deixado a condição de terrorista, em 1990, deu inúmeras entrevistas, onde relatou esses episódios de sua infância e juventude, tendo narrado, mais de uma vez, esses poemas em seus depoimentos. É fato sabido que Mandela não se tornou poeta, mas a divulgação dessa influência da poesia em sua formação, junto aos jovens da África do Sul pós-apartheid, fez gerar um movimento que vem lentamente resgatando a poesia nativa desse país, que já conta hoje com uma nova geração de poetas, que se exercitam nas duas tradições poéticas conhecidas, a oral e a escrita.

Para esses poetas, o perpetrar do poético se deu através do contato com poemas nativos, narrados por um ex-preso político.

Rainer Maria Rilke (1875-1926), talvez o maior poeta de expressão alemã na passagem do século XIX para o XX, em carta a uma amiga, conta que conservava certa mágoa de um mestre de latim que tivera na infância, que frequentemente o espancava, quando, sabatinado diante da classe, mostrava-se completamente inapto para o aprendizado da língua dos césares, e que, certa vez, para evitar as surras diante dos amigos de escola, que também zombavam dele, decidiu se entregar à maratona de ler, em um mês, além da gramática latina, os principais poetas da tão prolífica língua do Lácio, entre eles Virgílio, Horácio, Ovídio, Juvenal, etc. Como resultado desse esforço, conseguiu inclusive traduzir longos trechos de poemas desses poetas, e ainda compôs um poema, certamente o seu primeiro, tendo como tema aquilo que lera. O mestre foi surpreendido quando, convocando Rilke para a sabatina oral, ouviu-o declamar Virgílio, em latim, em alto e bom som e, ainda de quebra, o seu poema. Nunca mais apanhou, de mestre nenhum. Rilke ainda conta que, não fosse a brutalidade de seu mestre, e a vergonha que sentia diante dos amigos, provavelmente não teria feito o esforço, pois, como ele mesmo disse, “não aprendia completamente o latim, porque não conseguia ouvir a voz que emanava daquela gramática chata e sem vida, mas com os poemas foi diferente, ouvi claramente a voz que compusera os versos, quase como se fosse a minha própria voz”.

O perpetrar do poético para Rilke deu-se de modo obtuso, mas eficiente, pois o poético, como todas as demais forças coletivas, sempre encontra um modo de superar os problemas. Pena que seu primeiro poema se perdeu.

Pergunte aos poetas que conhece, e verá que exemplos como estes aqui narrados são comuns no universo da poesia, embora pouco revelado pelos próprios poetas que, não raro, ou consideram esses fatos de pouca importância no contexto de seu artesanato, ou o mascaram, como que tentando dar um caráter menos ocasional, e mais ideal, mais missioneiro, ao fato real de que se tornaram poetas simples e tão somente pelo fato de que foram colhidos pelo acaso poético, e impulsionados e regidos, a partir daí, por forças coletivas pouco conhecidas e, portanto, que pouco servem a algum empirismo filosófico ou à teoria literária ou à crítica. Eu, ao contrário, acho a questão sumamente importante: saber como os poetas, desde Homero, foram impulsionados pelo poético rumo à poesia poderia ser o modo de resolvermos um antigo mistério, a saber: quais foram as bases e como se deu a gênese da poesia? Penso que seria um dos caminhos mais certeiros, senão o mais poético; mas a falta de material biográfico, principalmente do século XIX para trás, inviabiliza a tarefa. Contudo, para matar minha curiosidade, fiz uma breve pesquisa com o círculo mais íntimo de poetas amigos. O que descobri foi que, 90 % deles foram tocados pelo poético a partir da leitura de livros de poesia, e que os outros 10 % o foram através de outras experiências, no mais das vezes, orais.

Com apenas esta pesquisa, e alguns poucos relatos que encontrei e ouvi em minhas andanças, percebi que o material seria insuficiente para a formulação de uma teoria, principalmente em moldes acadêmicos. Porém, sendo poeta, sei que a questão da gênese da poesia retorna de tempos em tempos e impõe a necessidade, senão de uma resposta, ao menos de um contorno que aclare, para nós, poetas, e para toda a massa humana que se beneficia da poesia, a real dimensão de nossa jornada humana, além da nossa paternidade poética. Pois, o que encanta as pessoas na poesia não é a proposição de mistérios, mas o seu contrário: dar à luz o que se acreditava não saber ou não poder ver. Fazer incidir luz sobre a questão da gênese da poesia é, no mínimo, mantermo-nos fiéis ao nosso ofício de poetas, e possibilitar que, um dia, venhamos a responder objetivamente à pergunta: Para que serve a poesia? – que, sendo aparentemente desimportante ou sem resposta ou com muitas respostas, é também frequentemente utilizada para menosprezar a real capacidade que a poesia tem de transformar as pessoas e o mundo ao seu redor. Mas, enfim, vamos ao que viemos.

Se tomarmos como base real o fato de os poetas atuais terem sido tocados pelo poético através da leitura de poesia, em sua maioria, e pela experiência oral, em sua minoria, e fazendo o caminho inverso da história, de agora para trás, perceberemos que esse percentual vai se modificando, até chegar ao seu exato oposto. Se o percentual atual é de fato este, 90% através da poesia lida e 10% através da poesia ouvida, isto se deve ao fato de que uma invenção tecnológica do século XV mudou definitivamente os pesos da balança.

A invenção dos tipos móveis em chumbo fundido, promovida por Johannes Gutenberg (1390-1468), deu à produção de livros uma dinâmica até então não sonhada e marcou o início do fim da chamada tradição oral que, até aqueles dias, dividia o peso da balança com as cópias manuscritas de livros, muito mais caros e mais raros, porquanto sua manufatura era tecnicamente lenta e complexa. Com menos livros no mundo, e sendo a alfabetização algo imensamente restrito, a atividade mnemônica, nossa capacidade de memorizar visual e auditivamente nossas experiências, era, por certo, o modo como as informações passavam de homem a homem, oralmente, ao menos entre as pessoas comuns, que pouco ou nenhum acesso tinham às escolas eclesiásticas que, junto com as cortes da nobreza, eram os únicos lugares onde, durante a Idade Média, se encontrava homens alfabetizados. Por isso mesmo, não deveria estranhar que foi primeiro das abadias que saíram as principais correntes da poesia medieval, como a poesia mística feminina, a poesia trovadoresca provençal e os chamados poetas goliardos, que, do século XI ao século XIII, constituíram o maior fenômeno poético que se tem notícia da Idade Média, e do qual fizeram parte poetas do porte de um Arquipoeta e de um Pedro Abelardo, escrevendo poesia sobre temas religiosos e mundanos, em latim e nas línguas vernáculas.

Se considerarmos que a poesia da Idade Média teve como principal tema o Amor, encontramos aí uma pista para entrever como o despertar da poesia se deu para os poetas medievais. Falando de amor, os poetas medievais tinham como base de sua escrita principalmente o poeta latino Ovídio, a quem imitavam ordinariamente. Depois vinham os demais latinos, Virgílio, Horácio, etc. É de se pensar que cópias de Ovídio e dos demais poetas latinos chegaram até os scriptoriuns dos mosteiros medievais, onde eram copiados e distribuídos na enorme rede de mosteiros e abadias cristãs da Europa de então. Desse modo, podemos ver que, ao menos a partir do século VIII, os livros já estavam na pauta dos poetas, e é claro que foram usados no processo de perpetração do poético. Até porque, a partir do século VI, a Igreja sacudiu a Europa com seu processo de catequização dos povos bárbaros e, para isso, certamente, tomou o controle do que era então veiculado oralmente. Tomando isto como certo, podemos dizer que nosso percentual estava, na Idade Média, em torno de 60% a 40% a favor dos livros, e corroboram para isto a importância que a Igreja dava a eles, tendo, mais de uma vez, promovido queimas de livros considerados heréticos durante esse período, incluindo livros de poemas. Sabemos que Sapho de Lesbos, a fabulosa poeta lírica grega do século VI a.C., foi uma das que tiveram sua obra destruída nessas queimas.

A bem da verdade, quando falamos da tradição oral da poesia, estamos nos referindo a um tempo do qual temos pouquíssima informação. Um tempo que, provavelmente, antecede a Homero, já por sua vez um poeta lendário. Sabemos que desde o século V a.C. livros circulavam pelos portos do Mediterrâneo, havendo mesmo a existência de uma espécie de indústria do livro na Antiguidade, com empreendedores que, servindo-se de trabalho escravo, comum, então, faziam proliferar cópias dos poetas que haviam cravado seus nomes nas mentes do povo e nos anais da História. Quero crer que poetas como Homero e Hesíodo, ao contrário do que as mistificações promoveram ao longo dos séculos, escreveram seus poemas e tiveram como base de seu despertar poético textos que não chegaram até nós, ou que, isto, sim, foram a eles transmitidos, em maior proporção, oralmente, período este onde certamente encontraríamos nossas cifras no total inverso do que a encontramos hoje.

As mistificações elaboradas desde a Antiguidade têm uma razão. Para aqueles, posteriores a Homero e Hesíodo, que já estavam mais acostumados à existência dos livros, tinham como base e exemplo unicamente esses dois poetas, pois nada, nem eles e nem nós, encontramos que os anteceda. Enfim, o que havia de oralmente registrável até Homero e Hesíodo, certamente foi convertido em texto escrito por esses dois poetas, ambos com uma poesia de dimensão bíblica, como se a eles tenha sido dada a missão de organizar, pela primeira vez, o conjunto de informações até então transmitidas oralmente a um povo: Homero narrou a sanha guerreira e amorosa desse povo, e Hesíodo, a sanha divina e a sanha organizacional, e legal, desse povo ancestral do Ocidente. Daí entender que foi fácil atribuir a eles uma atividade poética puramente oral, dando a Homero, por exemplo, inclusive a qualidade da cegueira, ou seja, dando a ele a incapacidade da escrita, numa óbvia tentativa de estabelecer uma gênese da poesia dentro de um tempo histórico reconhecível. Além disso, existe o fato da confusão que se estabeleceu a partir da atividade popular dos rapsodos, os artistas declamadores, que memorizavam os poemas e os narravam publicamente nas cidades da Grécia. A imagem do rapsodo, que mantinha o contato com o povo, confundiu-se com a imagem do aedo, que compunha versos, além de declamá-los. É possível ver aqui certa dose de corporativismo por parte dos rapsodos, a quem interessava ter esses poetas como pertencentes a uma tradição puramente oral, pois isso lhes daria a qualidade profissional extra de serem também herdeiros de sua obra e glória poética.

Seja tudo isso real ou mera especulação, o fato é que só temos uma trajetória histórica acerca da gênese da poesia, que podemos percorrer com um mínimo de certeza, que é a partir de documentos, ou seja, de poemas escritos, fisicamente registrados, que foram ao longo dos séculos aperfeiçoando seu suporte, até chegarmos ao livro e, agora, com o advento da internet, ao livro eletrônico. Visto assim, a gênese da poesia, para nós, poetas nascidos dos livros, não é outra senão o registro físico dos poemas, que hoje encontramos nos livros e em suportes eletrônicos, e que um dia já foram um pedaço de couro ou um rolo de pergaminho. Se quisermos ir além disso, teremos só a imaginação como companheira, e aí vale tudo. Porém, como ainda hoje não é incomum atribuir-se aos poetas a capacidade de antever, um ver antes que inclui em nossa herança os xamãs, os adivinhos e os profetas, poderíamos dizer, que aqueles homens do Paleolítico, que pintaram as paredes de Altamira e outras cavernas, seriam como que os primeiros poetas, que, ainda sem uma escrita, fizeram ali uma primeira tentativa de dar matéria ao poético, uma matéria ainda em nível simbólico, mas já linguagem, e não menos superlativa que a linguagem de Homero ou a nossa. Seguindo essa trilha, poderíamos dizer que foram os poetas os inventores da escrita? Se foram, começaram ali, tateando as paredes frias e ásperas das cavernas, guiados por uma força que os transcendiam, sendo perpetrados pelo poético, em solidão, portanto, primitivos candeeiros, rudes gráfios e tinta vermelha como sangue, e não muito diferente de como, simbolicamente, escrevemos poesia hoje.

E de volta ao começo: Para quê serve a poesia? Ainda seguindo a trilha da imaginação, talvez já tenhamos servido o que tínhamos para servir: a invenção da escrita e, através dela, a constituição de um caminho de revelação, um caminho civilizador? Mas, então, se já está feito, por que continuamos? A resposta talvez esteja num fato observável nos últimos dez anos, que foi uma reflorescência da poesia em nosso meio, e registrada nos mais diversos lugares do mundo. Seria esse redespertar o início de uma nova invenção? Seria essa invenção, seguindo a nossa tradição, uma nova linguagem, uma nova escrita, uma nova arte? A resposta a essa pergunta seria então isto: poesia, que já serviu para fundar a escrita, agora, de tempos em tempos, serve para refundá-la? Ainda não sei. Mas dá o que pensar.

É claro que, partindo de uma pesquisa tão mínima, não vim aqui propor, e provar, que os poetas, na maioria das vezes, não nascem poetas, mas, sim, da leitura de livros; que a gênese da poesia, como a conhecemos hoje, está estreitamente ligada à existência do registro de poemas e de livros de poemas; nem que a utilidade da poesia reside em refundar a escrita, além de dar a saber o que se acreditava insabido. O que vim dizer, é que temos material suficiente para rejeitarmos as mistificações em torno do nosso ofício. Mistificações essas muito provavelmente promovidas pelos próprios poetas, que, acostumados ao espanto e ao deslumbramento que se expressa diante da beleza e da profunda visão emanadas dos versos, crêem que assim contribuem para a manutenção de seu status, a saber: dizer que para ser poeta é preciso nascer com o dom da poesia, e esse dom ter certo quê de atribuição divina; e, assim, por haver um dom, ser a gênese da poesia algo misterioso e intocável, ou sobre-humano; e por ser sobre-humano, ser a utilidade da poesia a manifestação suprema da verdade e da beleza. Nada disso é verdadeiro e só contribui como desserviço à própria poesia, que já tendo se confundido com a própria literatura do homem, é hoje o gênero literário menos lido no mundo todo. Desmistificar nosso ofício é aproximá-lo das pessoas humanas e ser com elas apenas humanos, ainda que possamos fazer isso com brilhantismo e arte. A grandeza da poesia não está em ser privilégio de poucos nem divina, está em ser o mais superlativo dos organismos verbais do homem, e isso se deve ao fato de que nasce dessa enorme e ainda incompreendida força coletiva humana e, portanto, de homens comuns e suas tribos. A mesma força coletiva que já erigiu pirâmides, que derrubou impérios, que fundou religiões, que pôs a pique Bastilhas e derrubou muros como os de Berlim.

Evidentemente, continuamos sem saber, de fato, como nascem os poetas, qual a gênese e para que serve a poesia. Mas gosto de lembrar que os poemas de Homero e Hesíodo eram o que, basicamente, se ensinava nas escolas gregas pré-socráticas; que Otávio Augusto, quando precisou de uma base histórico-mitológica para instalar sua democracia principesca, pediu a Virgílio que escrevesse a Eneida; que os poetas goliardos, que fugiram dos claustros medievais e caíram nas estradas da Europa, onde cantavam seus poemas de amor profano, também foram os estimuladores do surgimento das primeiras universidades; que os panfletos atirados sobre a França, pelos Aliados, durante a Resistência à invasão nazista, foram escritos por poetas. Gosto de lembrar, porque penso que, nesses fatos, sem mistificação nenhuma, podemos ver que a poesia serviu para alguma coisa.



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