Poemas
SOBRE A ESSÊNCIA
Nós, os homens do povo, tememos a morte.
Mas nós, o povo, homens mortais, somos a morte.
E ainda que estejamos prontos para voltar, eis a terrível essência…
Houvesse a casa para voltar…
Mas não existem as tais casas para onde se pensa voltar,
nem os lugares onde se pensa que ficam e tudo há de ser um ir sem fim,
tal qual se expande o universo, e formam-se os planetas…
e morrem…
Perpetuamente o pó das estrelas rumo ao infinito propagar do big-bang.
Entre o nada e o indivisável… onde o fim?
Começamos na morte
e é assim que a terrível essência é a única essência…
Só a vida é transitória.
SOBRE O AZUL
Fosse-me dada a translúcida poesia,
não escreveria mar, escreveria azul,
não escreveria céu, escreveria outro azul
e, fundindo-os, escreveria muito azul.
Translúcida a poesia,
não escreveria árvore, pedra, rio;
escreveria verdes, e ocres, e ocres moles.
Translúcida essência, a poesia,
o signo emanado onde põe a mão o olhar,
não escreveria amor, escreveria vermelho.
Não escreveria amantes, escreveria vermelhos.
E, assim, vermelhos seriam, sobre os ocres,
à sombra dos verdes, diante do azul,
sob o outro azul, imersos na metáfora muito azul,
assim como em um poema sem ideologia.
OS HOMENS DO POVO
Quem se importa que Jean Luis Benaud
morreu no dia 28 de janeiro de 1798, em Paris, guilhotinado?
Homem comum, foi julgado pelo Diretório,
segundo os que testemunharam contra ele,
por ter furtado uma arroba de farinha de um comerciante de pães,
sediado na Rue de La Sarge, no distrito de Saint Dennis.
As testemunhas, receosas, também o caracterizaram como partidário dos
[Jacobinos.
Tudo isto está nos autos e nada mais se sabe desse homem.
Mas, é certo que, ao ser levado para o patíbulo, estava apavorado,
e é também provável que o pavor o tenha mantido em silêncio.
Talvez tenha levantado os olhos à procura de algum conhecido,
antes que atassem seu pescoço sob a guia da incólume lâmina,
e é óbvio que, naquele instante, já não se lembrava o que o motivou a furtar a
[farinha.
Consideremos que a morte desse estranho,
restou para nós apenas por ele ter vivido numa época de grandes revoluções,
e grandes ódios, como ainda o é agora, e, em verdade, sempre o foi,
as circunstâncias da História que, acidentalmente, deixa um nome qualquer
escrito num papel amarelecido, que alguém lerá séculos depois.
Antes, como agora, a grande maioria dos homens
tem uma morte sem significados grandiosos,
e quando deixam seus nomes cravados nos anais,
isso não pode ser mais que uma falha dentro do que a História considera,
pois em tudo o mais, antes, como agora,
a sina dos homens do povo é serem vencidos em silêncio.
Mas, quem se importa? Como se importar?
E agora, como antes, há um enorme silêncio a nos abraçar.
A MORTE DE BERTOLT BRECHT
Nasci. Quatro dias depois ele morreu.
Cinqüenta anos depois chorei a sua morte.
Vivo de quatro dias, não me informaram que ele morrera,
a mim, que logo teria crises de asma
deitado no colchão dentro do chiqueirinho,
ao lado da máquina de costura de minha mãe,
ocupada com tantas bocas para alimentar.
E eu, mais uma boca, ali, asmático, sendo tocado
— embora não tenham me avisado —
pelo grande tema de minha vida que, ainda não entendia,
iria procurar mais ar na poesia.
Fui, como todos os poetas,
muito cedo tocado pelo grande tema.
A uns foi mais o amor, a outros mais a natureza,
uns poucos de sócio-olhar também falaram da pobreza,
negando direito aos que fincam na história
o nome e os feitos que, bem sabemos,
tantos anônimos fizeram.
A mim foi a morte.
Embora a dele não tenham me informado.
Cinqüenta anos depois,
ao avizinharem-se os anos de vida
que já fazem parte da outra geografia,
abri finalmente o seu livro e,
chorando a sua morte
descobri que ele ainda vivia.
Disfarçado sob a tinta preta,
sobre o papel áspero e branco
despertou-me de meu lamento e gritou:
Abaixo a mortalidade!
SEPARAÇÃO DAS ÁGUAS
Aqui, como frutos, o sol dá em árvores,
que, calcinadas, oferecem seus frutos tórridos ao mar e às areias.
Laranjas ressecadas,
nossas cabeças são labaredas insones à beira-mar
e o nosso sexo atravessa a praia até as águas dessa extrema hora,
em que, confusos ante a inominável sede do humano povo,
estendemos a mão ao mar
e acreditamos que dele saltará o bom peixe a nos abraçar.
Mar! Ó, mar que nos banha, o mar dos gregos, o mar de Poseidon,
e ainda o mar das caravelas e dos barcos negreiros,
os barcos cristãos em ondas iorubanas, ó, mar dos orixás,
ó, mar dos profetas do deserto, mar de mistérios e alimentos,
o mar das morenices e veraneios, e mar tropical,
ó, trópico fendido pelo alto mar da história!
Um poeta fita o mar. Chama-o a cidade e o povo trazidos pelo mar.
Mas ele ainda se pergunta o que há além das águas…
Que ancestralidade, que úbere de húmus e ventos,
que odores encarnados, que frutos pendidos nas nuvens verdes,
que saudoso povo canta em roda seus seixos,
que saudosas mães fazem amuletos a seus filhos e os dá ao mar,
que deuses escrevem na areia o refluxo de suas palavras,
que povo sem pátria salga os peixes ao sol…
Um poeta fita o mar. Chama-o a cidade e o povo esquecidos do mar,
do mar da história, do mar das cidades e dos povos,
do mar que cobra em sangue humano seu imenso azul.
Um poeta fita o mar,
e súbito em seu peito faz-se a separação das águas.
O POVO
Quando me vem a palavra Deus, vem também a imagem de São Jorge
e, junto, o nome de Oxalá, e, de quebra, um querubim barroco,
que pousa em meu ombro e sopra em meu rosto
a púrpura das divindades.
Assim é o João Ninguém, que carrego em minha fé.
E nisso sou como o povo.
Porque o povo, em sua inaparência, é um tudo.
E sendo tudo, é a própria vida e a terra onde nos pensamos vivos.
Ser o povo é ter uma grandeza insofismável.
Uma grandeza de João Ninguém, apagada pelo rosto dos santos.
VELHICE
Ter os olhos para o mar,
e distante ver, não o que virá a ser,
mas o que já foi deixado nas remadas.
E assim, na areia da praia, e ainda o gosto do sal,
a velhice é uma forma acumulada,
que espera, ainda, as ondas.
POEMA ERÓTICO
Não fosse apenas sexo,
seria apenas um amontoado de palavras com cheiro de sexo,
como um orgasmo brutal e sua expressão masculina, o sêmem,
o poema erótico ergue-se dentro do ideário.
Saco de palavras dependurado no corpo pálido e fino,
o papel substitui o corpo, que não mais está lá,
jovem e belo, o animal que exala e cheira:
o nome no lugar do grunhido,
a lembrança no lugar do olhar,
o pathos no lugar da ação.
Não fosse apenas a vontade de sexo, seria enfim sexo,
simples e banal sexo, a vida tal qual Eva e Adão,
o sexo suburbano e vital
com um toque de arte, iconoclastia do essencial.

Seus poemas, como a vida, nascem como repentinos frutos, de uma árvore antiga, que ainda vive sobre o solo árido. Este solo colhe a seiva última, esse lastro de poesia que se funde em sua pena, homem de palavras múltiplas, sentidos vastos, e derramam as sementes sobre o chão, arquejantes de beleza e plenitude.
suas palavras e versos me transpõem a algum lugar (ou será lugares) que ainda nao fui….creio que seja sua plenitude como poeta, como bem disse Thereza. Mas como é bom viajar por esses mares….
*Aqui, como frutos, o sol dá em árvores*
isso é… fantástico!
essas coisas me doem, me doem mesmo.
gostei bastante de invadir sua casa…rs