Quase Crônica
A VIDA DOS LIVROS
Pro captu lectoris, habent sua fata libelli.
“De acordo com a compreensão de quem os lê, os livrinhos têm seu destino”
Terenciano Mauro
(séc. III d.C.)
Há quem diga que falar dessas coisas é dar a mão ao Diabo. Afinal, onde já se viu dizer que livros têm vida própria? Por outro lado, como explicar certos fenômenos que ocorrem com os livros? Por exemplo, você está em sua casa conversando com alguém sobre um assunto importante, há uma discussão acalorada, aí você vai à prateleira, onde tem certeza que encontrará o livro que trará força aos seus argumentos, mas eis que o livro não está lá. Então, você procura nas outras prateleiras, remove livros de lugar, praticamente revira toda a biblioteca e nada. O livro simplesmernte não está lá. Aí você afirma que tem certeza que livro estava lá e que, ainda ontem, o vira naquele lugar específico. Mas, é claro, a discussão não vai esperar você encontrar o livro e o assunto segue e você fica sem comprovar seus pensamentos. Aí vem a parte mais surpreendente desses fenômenos, pois, mal o interlocutor acaba de ir embora, você volta à biblioteca e eis que o livro está lá, no exato lugar em que você sabia que ele estava.
Foi William Faulkner (1897-1962) quem o disse, numa entrevista à The Paris Review, em 1956, que os artistas (inclua-se os escritores) são aqueles que, usando meios artificiais, conseguem encerrar nos suas obras, sejam eles romances, contos, poemas, peças de teatro etc, o tempo, o movimento da vida, e o fazem de tal maneira, que quando alguém, num tempo futuro, vier a abrir o livro onde está o texto desse artista, o tempo nele encerrado voltará a se mover. Olhando por este viés, já não parece tão estranho dizer que os livros têm vida, já que o tempo que contêm sempre voltará a se mover a cada vez que ele for aberto, e o tempo, digamos assim, é onde sentimos e experimentamos a vida, e os livros, por isso, por terem a capacidade de portarem a vida, já que sempre voltará a se mover, podem ser tratados como seres fenomenais, diabólicos ou não, que têm vida própria e, porque não dizer, até mesmo destino. E a respeito disso conheço, entre muitos outros, três acontecimentos que particularmente me fazem pender para os que acreditam que os livros têm de fato vida própria.
1º – Os Livros gêmeos
O primeiro desses acontecimentos é o mais recente e ocorreu num fim de semana do verão de 2008, em que fomos convidados por Pedro e Juliana, para passar uns dias na cidade serrana de Teresópolis, nome a ela dado em homenagem à Imperatriz Dona Teresa Cristina, esposa do Imperador Dom Pedro II. Cidade de clima agradabilíssimo, encrustada no topo na Serra dos Órgãos, não muito distante de Petrópolis, e que tem por portal uma formação rochosa conhecida nacionalmente pelo nome de Dedo de Deus, fizemos caminhadas, desfrutamos de uma culinária feita com ingredientes naturais, sem agrotóxicos e, num encontro com outros viventes da região, levamos nossos livros e os lemos, em voz alta, prosas e poesias, noite adentro. E Pedro estava felicíssimo com sua última aquisição livresca, um exemplar da Antologia de Poetas Brasileiros Bissextos Comtemporâneos, organizada pelo imorredouro Manuel Bandeira, numa edição princips, de 1946, finamente acabada, com capa dura e impressa em papel bíblia, um primor de livro, fora o conteúdo, fora o tempo nele contido. Lidos os textos, devolvemos aos livros sua imortalidade, e fomos dormir ainda respirando o tempo onipresente, que só os livros têm. Na noite de domingo, despedimo-nos relutantemente, fechamos a casa e voltamos todos para o Rio de Janeiro. Já em casa, passava da 23ª badalada, toca o telefone e é Pedro do outro lado da linha, completamente consternado, quase desesperado, quase emputecido: o livro simplesmente desaparecera. Pedro perguntava se nós, por engano, não o teríamos levado. Fiquei constrangido, quase ofendido, quase puto. Mas passados alguns dias, eis que nos encontramos mais uma vez e Pedro revela todo o ocorrido com o livro: não tendo encontrado o livro em sua casa, nem na casa de Teresópolis, nem na nossa, ligou consternado para uma amiga lamentando-se do fato; a amiga, no intuito de aplacar a tristeza de Pedro, encomendou em um sebo virtual um novo exemplar do livro, raríssimo, mas com publicação posterior à que Pedro perdera; dias após o telefonema à amiga, o novo/velho exemplar chegou à casa de Pedro, no Rio, e no mesmo dia, Pedro, indo deitar-se aliviado de sua perda, olha para a pequena prateleira de seus livros de cabeceira e eis que o outro exemplar, o de 1946, estava lá, sonolento, esquecido, à espera de uma nova leitura noite adentro. Tomado conhecimento da peripécia, passei a chamar esses dois exemplares da Antologia de Poetas Brasileiros Bissextos Comtemporâneos de “Livros Gêmeos” que, nascidos da mesma fonte geradora, vieram ao mundo separados por um curto espaço de tempo, e têm a impar qualidade de par inseparável, como na melhor das amizades, no mais duradouro dos casamentos, e que apesar das pequenas diferenças físicas, tamanho, coloração, possuem o infinito dom de confundir e iluminar, de esperar e surpreender, uma brincadeira de irmãos. Detalhe: Pedro disse que, ao se deparar com o exemplar original na prateleira, e tendo outro, presente da amiga, à mão, riu-se a valer, mas estando com muito sono, limitou-se a colocar um ao lado do outro, e dormiu, feliz com o reencontro.
2º – O Livro que sabia quem o podia ler
Resposta a Jó, de Carl Gustav Jung, considerado pelos entendidos como um dos pontos altos de sua vasta obra psicanalítica, é nome de livro pouco conhecido fora dos portais das salas de psicoterapeutas e escolas de psicologia. O nome do livro geralmente assombra os que, conhecendo o Antigo Testamento da Bíblia cristã, mas sendo pouco afeitos a estudar matérias complexas, imaginam-no como um desafio, senão uma afronta, ao espírito catártico do célebre Livro de Jó, e, por ser considerado livro teórico, escrito por um dos pais da Psicanálise, evitam-no, provavelmente pensando que, se não podem entender o que afirma o Livro de Jó, como poderão entender uma resposta a ele. E este é um livro que não só é pouco lido, como parece saber quem o pode ler.
Esse fenômeno se deu com um amigo, para quem o tempo já parou de correr, bom poeta, bom amigo, assíduo, generoso, o que, infelizmente, não o impediu de ter uma vida trágica. Era desses espíritos altivos, muito culto, muito arredio ao convívio social e, óbvio, infeliz no trato com as mulheres e no amor. Houve um tempo em que, assediado pelos amigos, e envolvido num complicado caso amoroso, acabou por tentar uma psicoterapia e, de cara, foi parar nas mãos de um terapeuta junguiano. Como em toda terapia dessa imaginativa linha da psicologia, os sonhos são muito importantes, é imposto ao paciente, como parte da terapia, anotar os sonhos e discutí-los nas sessões com o terapeuta. E meu amigo se deu a esse trabalho e, inesperadamente, a análise dos sonhos começou a revelar para ele um novo mundo, e de tal forma foi-se envolvendo, que começou a ler toda a obra de Jung, comprou-a inteira, recém publicada completa e em volumes por uma editora especializada. Justificava este fato com um simples dizer: “Preciso ajudar o terapeuta a me ajudar!”. E assim passaram-se meses, até que um dia deparou-se ele com o tal livro, Resposta a Jó. Contou-me ele da ansiedade de que fora tomado quando sentou-se na escrivaninha, completamente só, e abriu o livro. No entanto, da ansiedade à frustração foi uma olhada. Mal começou a ler e foi tomado por pensamentos sombrios, suas mãos se congelaram, sentiu-se envolto por espíritos, precisou fechar o livro e sair à rua. Voltando ao terapeuta, contou-lhe o ocorrido, mas o mesmo não o comentou e se ateve aos sonhos da semana, dizendo-lhe apenas que não desistisse da leitura. E assim meu amigo o fez. Foram mais não sei quantas outras tentativas de ler o livro, incontáveis, e toda vez que o abria, repetia-se o fenômeno: pensamentos sombrios, calafrios, espíritos dos mortos à solta. Até que um dia, completamente frustrado, sentenciou: “Esse livro não quer que eu o leia!”.
Passados outros tanto meses, o terapeuta, acreditando que já cumprira sua missão para com meu amigo, determinou o fim da terapia, e meu amigo consentiu. Afinal, embora a terapia tivesse alargado seus horizantes humanos, e até mesmo curado-o de algumas neuroses, isso não o impediu de brigar com vários amigos, criar um monte de inimigos, e perder Maysa, o grande amor de sua vida. Mas eis, então, que o fenômeno se dá por vencido e, mal terminada a terapia e meu amigo, retornando ao seu velho e corrosivo mau humor, tentou, como quem já sabe que não vai conseguir, uma última leitura do livro e finalmente o livro a ele se deu, por inteiro, cabal, apaixonadamente. E foi uma paixão mesmo o que se deu entre meu amigo e o livro. Ficaram ali, até o dia raiar, até consumar-se na exaustão essa entrega tão difícil. E não foi apenas uma leitura o que aconteceu, mas muitas e muitas mais, e de tal forma, que meu amigo tornou-se um defensor e um divulgador do livro, e o fazia a todo instante e em qualquer lugar, e a quem quer que lhe desse ouvidos. Como tudo o que o apaixonava, o livro também tornou-se a sua doença. Lembro-me de uma noite num boteco, sentado à mesa com garotas que acabáramos de conhecer. Lembro-me claramente do momento em que uma delas, exasperada, levantou-se e disse: “Eu estava até achando interessante, mas você me encheu tanto com essa história de Jó, que eu já estou cheia e tenha certeza de que não vou ler esse livro!”. Meses depois meu amigo morreu, de um câncer inapelável. Na última visita que o fiz, encontrei-o com o livro à mão e, ao ir embora, ele pediu que eu levasse o livro comigo e assim o fiz, e a mim o mesmo, surpreendentemente, não impediu que eu o lesse. Creio que certos livros são assim, vívidos, e devem ser ofertados sempre a quem os podem ler, e nunca a quem precisa ler, do mesmo modo que, em conhecimento, querer não é poder.
3º – O livro que foi roubado pelo Diabo
Eu andava envolvido por leituras sem fim, as mais variadas quanto aos assuntos. Foi uma fase de buscas entre as mais intensas que vivi, e nela tudo cabia: dicionários, livros de medicina, tratados de filosofia, cibernética, romances, poemas, histótia, geografia, cinema, espiritismo, candomblé, enfim, eu era um saco sem fundo, um Tonel das Danaides dos livros. O salário era pequeno para tanta fome. Apelei para empréstimos, e não os paguei, e vi meu nome inúmeras vezes ilustrar o cadastro dos mal pagadores, e cheguei até a praticar pequenos furtos em bibliotecas, livrarias, sebos e bancas de jornal, e até hoje não sei se me arrependi completamente desses atos criminosos. Eu estava como que endemoniado e os livros eram o meu inferno.
A intensa leitura desse período acabou por me conduzir a assuntos pouco divulgados ou de difícil acesso. E foi aí que, inadivertidamente, decidi que tinha algo a dizer sobre o tal do Diabo e resolvi escrever um romance, o meu primeiro e, até agora, o último. E a coisa veio de supetão, num fim de tarde nublado, sentei-me à escrivaninha e escrevi, de uma só canetada, a introdução e os dois primeiros capítulos. Finalmente parecia que eu começara a tornar-me escritor. Fiquei efusivo. Saltei da escrivaninha e fui à casa de minha então namorada, para contar-lhe a boa nova. Ela, é claro, achou tudo ótimo e maravilhoso, até eu lhe contar sobre o que eu escrevia. Disse, erguendo-se no topo de suas sandálias com salto: “Diabo! Você não tem nada melhor para escrever? Você está louco? Sai de perto de mim!”. E eu fiquei ali, entre um “mas…” e outro “mas…”, e quando quiz ler o que já tinha escrito ela alucinou: “Não quero ouvir! Leva isso daqui!”. Ou seja, fiquei sabendo que não contaria com o apoio dela nesse assunto.
Apesar do embate, o namoro continuou, e eu continuei a escrever o livro. Mas o fato é que de qualquer pessoa a quem eu comentasse o que andava escrevendo, vinha um certo ar de reprovação. Era como se o senso comum estivesse me dizendo que essa sanha era perigosa. Mas o livro não parava de crescer, era como se ele soubesse de algo que eu não sabia. Lá pela metade, resolvi fazer um resumo dos capítulos e os nomeei até o fim e anotei embaixo de cada título a sinopse do conteúdo, ou seja, o livro se revelou a mim antes que eu pudesse escrevê-lo. O livro não só tinha vida própria como escrevia a si mesmo e sabia seu próprio fim. Em certos momentos, por exemplo, ao escrever uma passagem por demais dramática, vinha-me a sensação de estar sendo vigiado ou de que o próprio demônio estivesse ali a supervisionar a escritura. Conversando com um amigo sobre essas ocorrências, recebi o conselho de procurar alguém que pudesse me orientar na questão. Falei com os mais variados tipos de profissionais e especialistas: professores, psicanalistas, padres, médiuns, pais de santo etc. Descobri em todos a mesma negativa. Eu não percebia, mas era uníssona a voz do senso comum: não se negocia com o diabo! E olha que eu já tinha lido o Fausto, de Goethe, Os Cantos de Maldoror, de Lautréamont, e O Casamento do Céu e do Inferno, de Blake, e muito mais. Mas nada me demovia do objetivo. Eu me tornara cego quanto ao porque da façanha da escritura, às razões pelas quais sempre desejara escrever. Eu chegara a pensar que seria a estréia em livro mais estrondosa que já vira. Eu via sucesso naquilo tudo. Eu via um poder inexaurível.
Tempos depois, já quase terminando o livro, surgiu um trabalho importante, bem pago e que teria de ser realizado em Buenos Aires, onde encontraríamos as condições de locação ideal para a realização do comercial p[ata TV. Num átmo planejei tudo: Três dias, faço o filme, consigo umas estadias extras no hotel e termino o livro lá, na cidade de Borges! – Juntei todos os originais numa pasta de mão, muni-me de minha poderosa máquina de escrever Olivetti Lettera e parti. E de fato, tudo ocorreu como o planejado e, terminada a filmagem, tranquei-me por 4 dias no quarto do hotel e terminei o livro. Juntei todos os originais de volta na pasta, arrumei as malas, marquei o vôo de retorno para a manhã seguinte e saí para me divertir e beber em mi Buenos Aires querida. Uma farra longa seguiu noite adentro. Cheguei no hotel quase na hora de partir. Paguei a conta e me mandei.
Estava tão exultante com o término da missão, que até esqueci meu medo de avião e dormi a maior parte do tempo, agarrado à pasta com os originais. Ao descer em Cumbica, São Paulo, cidade que então era a minha cidade, encaminhei-me para a esteira das bagagens. Ao ver minha mala se aproximando, puxei um carrinho, coloquei nele a pasta dos originais e me lancei à bagagem, não mais que dois passos e, ao voltar com ela ao carrinho, numa virada, não mais a vi. Aliás, nunca mais a vi. Nem os originais, que, por um descuido da soberba, não tinham sido copiados ou xerocados. Como dizia belamente Dolores Duran, “Meu mundo caiu!”. Aturdido, estupefato, desolado, pensei: “Foi o diabo que roubou!” O senso comum deve estar certo: não se negocia com o diabo, porque o diabo só entrega a quem com ele negocia, e o negócio do diabo não é o divino, mas, sim, o inferno. Está claro que o diabo não é um apreciador de livros.
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Garanto-lhes que tudo o que aqui está narrado sucedeu, ainda que estes fenômenos tenham se dado tal qual a vida comum se dá, entre verdades e mentiras, entre sonhos e doenças, entre certezas e crendices. Nós, os seres humanos, somos assim mesmo, acreditamos no inacreditável, nos fiamos em sonhos, necessitamos buscar o poder, pensamos saber o que sabemos, e os livros, tanto para quem os escreve, como para quem os lê, nada podem ser senão aquilo somos, com a grande diferença de que são a única prova concreta da imortalidade. Porque nós passaremos, um a um, mas os livros não. O nosso tempo passará, mas o tempo contido nos livros não. O tempo, a vida neles, sempre estará a se mover. Ao menos enquanto houver quem os guarde.

Caro João, senti muito à época ter te constrangido com a história do livro desaparecido, mas eu estava esesperado mesmo e queria mais desabafar que outra coisa qualquer, o seu conto é delicioso, eu detectei uns poucos errinho de digitação, outro dia a gente se encontra e eu te mostro. Parabéns pelos casos tão bem escritos. um abraço apertado do amigo Pedro.