A MORTE DE ALPHONSUS DE GUIMARAENS FILHO E O NOSSO ANALFABETISMO LITERÁRIO

30ago08

Na vida dos que se aventuram a exercer atividade voltada para o mundo das Letras, há um momento crítico em que o candidato a poeta, prosador, cronista, filósofo, ensaísta, enfim, qualquer um dentro do amplo espectro de adjetivos que compõem o universo da literatura, precisa sabatinar-se e, antes, impor-se uma espécie de auto-aprendizado, que é conquistado simples e tão somente pela leitura de literatura. Esse auto-aprendizado pode ser tomado como uma espécie de segunda alfabetização que, para o candidato a “homem de letras”, pode ser chamada de “alfabetização literária” e esta, para os que decidem assumir de fato a atividade literária, nunca mais cessará. Será, para este, uma permanente alfabetização, mesmo depois de superada a condição de candidato, pois em literatura há sempre o que aprender. E foi no ápice desse aprendizado, quando acreditava estar esgotando o meu, que travei contato com a literatura de um dos grandes, a poesia de Alphonsus de Guimaraens Filho.

Conhecia bem a poesia do pai deste poeta, o marianense Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), certamente o maior nome entre os Simbolistas brasileiros, admirado pelos modernistas Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, que sempre lhe devotaram, com inteira justiça, elogiosas palavras. Mas, em 1985, veio-me a notícia de que um outro Alphonsus, o Filho, vivíssimo, acabara de ser agraciado com o hoje tão celebrado Prêmio Jabuti de Poesia, concedido pela Câmara Brasileira do Livro, por seu livro . Foi como uma pancada, uma reguada de mestre: a minha segunda alfabetização iria continuar! E para exemplificar meu espanto, cito apenas um entre os muitos e importantíssimos poemas desse belo livro:

 

O que contemplei de olhos cegos gravou-se para sempre. Inútil arrancar os [olhos.

Inútil atirá-los a um campo de onde retornam os mortos

com o mesmo ar de espanto e insônia. O que toquei com as mãos já idas,

frias, inertes mãos, agora se faz realidade casta e plena.

Inútil atordoá-la. Inútil querer feri-la no seu cerne, à grande esquiva,

se as próprias mãos dos mortos crescem no coto dos braços como inesperadas flores em ramos secos.

Vou-me no ímpeto das águas. Mas de que águas? Flores se dissolvem,

vidas se dissolvem, mortos se dissolvem. E inútil é arrancar os olhos.

Inútil morder a polpa da estrela desmaiada numa encosta onde Deus vacila e [sonha.

 

  • “Realidade Casta e Plena” de Alphonsus de Guimaraens Filho, in (1979-1981), in Só a noite é que amanhece, poemas escolhidos e versos esparsos. Rio de Janeiro, Record, 2003.

 

Uma “polpa da estrela desmaiada” – eis aí o que se amplificou à minha frente, uma poesia feita de metáforas, capazes de nos fazer repensar as possibilidades de construção das metáforas.  E voltei no tempo. Descobri, por exemplo, que Alphonsus Filho já fora agraciado com outros importantes prêmios, em 1941, o Prêmio de Literatura da Fundação Graça Aranha e o Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras, pelo livro Lume de Estrelas. Descobri também, que Lume de Estrelas foi decretado nome de rua, em 1971, na cidade do Rio de Janeiro, no bairro do Méier. Descobri, enfim, mais um poeta com quem aprender. E não foi um aprendizado fácil. A poesia de Alphonsus Filho, embora alguns a entronizem na terceira geração dos Modernistas, trafega numa amálgama gigantesca, e agrega tendências que vão desde o Simbolismo até os dias atuais e, por isso mesmo, tem uma indissolúvel marca pessoal, calcada sob cuidadoso labor e extremo rigor. Não tivesse tido o que ler e só tivesse lido a poesia de Alphonsus Filho, penso que ainda assim teria desejado tornar-me poeta, pois certamente teria, na sua poesia, um mestre com quem aprender. Para além de todos os epítetos, para além da doce graciosidade e grandeza com que tratou temas difíceis como Deus, a Morte e o Amor, a poesia de Alphonsus de Guimaraens Filho é uma aula de labor poético, é uma oficina de poesia feita sob a égide de uma única e generosa pena.

Em 2005, mudei-me para o Rio de Janeiro, mas infelizmente já não pude conhecê-lo pessoalmente, pois o poeta já estava acometido de grave doença. Mas, em dezembro de 2007, a Ponte de Versos, sarau da poeta Thereza Christina Rocque da Motta, realizou uma homenagem a Alphonsus de Guimaraens Filho e, pasmem, Alphonsus ainda estava vivo. Sim, estava, pois já não está mais. Morreu semanas atrás (em 28 de agosto de 2008) e não encontramos, para nosso espanto e indignação, sequer uma nota nos jornais do Rio, cidade onde o poeta viveu a maior parte de sua vida. E agora, já não estranha mais o fato de que, na citada homenagem de 2007, a grande maioria dos poetas presentes sequer soubesse que o poeta estivesse então vivo. Daí, que concluo: se o Brasil não pode mais ser chamado de um “país de analfabetos” (apesar do calamitoso estado da nossa Educação), pode, sim, ser chamado de um “país de analfabetos literários”, uma vez que esse analfabetismo é amplamente exercido exatamente pelos, assim cremos, supra-alfabetizados, os chamados homens de letras: jornalistas, escritores, poetas e todos os outros que adotam adjetivos literários.

A morte de um poeta, homem como os demais, nada nos revela além do muro temporal, que um dia teremos todos de atravessar. Mas a morte de um poeta da grandeza de Alphonsus de Guimaraens Filho, diante do obstinado silêncio dos que trafegam, indecisos, entre a ética e o celebrismo, revela-nos a enorme indigência a que está relegado o papel da literatura em nosso país, onde poucos, além de Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade (e Paulo Coelho, é claro), conseguem atrair a atenção dos veículos de comunicação, ainda que o público em geral nada dessas eminências tenha lido de fato. Aliás, resta-nos conviver com essa estranha sensação de alfabetismo dos homens de letras, que resumem Machado a “…ao vencedor, as batatas”, e Drummond a “No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho…”. Resta-nos conviver também com esse malfazejo resumo de nossos grandes literatos e com a repetição sistemática e desgastante de seus versos e frases, que insistem em pôr naqueles que as pronunciam, uma máscara de homens cultos. Alphonsus de Guimaraens Filho não teve sequer o privilégio dessa papagaiada. E como sei que não haverá quorum na enorme vergonha a que, como homens de letras, estamos obrigados, envergonho-me por todos, e este texto serve de aferição. Pior que viver num país de analfabetos, e analfabetos literários, é resignar-se a viver em um país de pseudocegos, surdos e mudos, que aceitam pagar o enorme preço da cultura do dinheiro e do sucesso e, em seu nome, apagam, com o descaso, os melhores entre nós. Se servir de consolo, não é de hoje que as coisas se dão assim em nossa cultura. Outros grandes, como Jorge de Lima e Murilo Mendes, também ganharam sua parcela de esquecimento e Hilda Hilst, quase nada lida em vida, mereceu, sim, alguns obituários, incluindo o mais concorrido de todos, o do Jornal Nacional, da Rede Globo, mas isto, provavelmente, por Hilda, nos últimos anos de sua vida, ter-se celebrizado mais por seu pornográfico inconformismo, e por falar o que pensava do mundo literário do que por sua literatura.

Por outro lado, Alphonsus de Guimaraens Filho jamais foi dos que se esforçam para estar na mídia, sendo um solitário produtivo e constante. Baseado nas atuais relações do mercado cultural e literário, poderíamos condenar sua atitude refratária à badalação e a estratégias de marketing, como também o fora seu pai, Alphonsus de Guimaraens. Morreu como viveu, na escrita da poesia que, uma vez realizada a tarefa, sabe-se entregue ao desconhecido de todos. Missão cumprida para Alphonsus Filho. Mas como não encontrei a tal nota que, penso, precisaria ter sido dada (ainda que isso em nada mudasse nosso analfabetismo literário), publico aqui o obituário:

 

ALPHONSUS DE GUIMARAENS FILHO

Bom filho, marido, pai e avô.

Grande poeta entre os grandes.

3/06/1918 – 28/08/2008

 

Os que chegaram até aqui, agora o sabem, Alphonsus de Guimaraens Filho está morto. Mas nós sabemos que sua morte, como a de tantos antes dele, como a de muitos que ainda virão, está perdida para a maioria de nós, analfabetos literários, que não choramos nem a morte do homem, nem a do poeta e, portanto, não teremos o trabalho de lembrá-lo ou de esquecê-lo. Resta-me crer que o próprio Alphonsus de Guimaraens Filho o sabia com antecedência:

 

Não seja por isto, noite.

Melhor é que desças. Com toda a tua treva.

E entre nós – embora ressabiados e feridos – até que poderás ficar à vontade.

 

Pois de qualquer modo há em ti um frêmito vôo informulado,

grande ave de asas cegas…

 

Somos teus, como sabes, todos te pertencemos, constrangidos embora.

Mas não seja por isto.

A casa é tua – como nestes domínios é hábito dizer aos amigos –

e poderás ficar à vontade.

 

  • “À Vontade” de Alphonsus de Guimaraens Filho, in Transeunte (1963-1968), in Só a noite é que amanhece, poemas escolhidos e versos esparsos. Rio de Janeiro, Record, 2003.  

     

    Anúncios


    7 Responses to “A MORTE DE ALPHONSUS DE GUIMARAENS FILHO E O NOSSO ANALFABETISMO LITERÁRIO”

    1. Mesmo carregando o estigma do nome do pai, Alphonsus de Guimaraens Filho soube ser livre em sua criação. Ele nos deixa em seu livro Poemas, 1998:
      insrição
      – sou o décimo quarto filho de um poeta.
      vim para este exílio numa tarde quieta de uma cidade morta.
      – e agora, que te acalma?
      – ver fechar-se a última porta sobre a última alma.

      J. B. Donadon-Leal

    2. 2 MUNIR COSTA

      é
      É REALMENTE TRISTE UM PAÍS QUE NÃO SO NAÕ REVERENCIA OS POETAS MAIORES E O PIOR NÃO OS CONHECE.SE FOR FEITA UMA PESQUISA E PERGUNTAR QUEM FOI RIMBAUD
      DE 100 PESSOAS , 0,5 RESPONDERA CERTO.
      ATENCIOSAMENTE. MUNIR COSTA

    3. um dos melhores.
      suas palavras sempre me doeram na carne.
      bons poemas sempre me dão agonia.
      acho que sempre que os leio, acabo-os parindo também.
      *à vontade* é o meu preferido.

      bem esteja.

      abraço invasor…rs

    4. 4 dara

      que pena um dos maiores
      poetas deixar o mundo assim de repente mas como ninguem e imortal temos que deixar o mundo assim derepente ele dechou sua familia para lembrar de seu nome historico…………..

    5. Á muitos anos, mais de 30, que andava a investigá-lo, por me zoar nos houvidos,que ainda era família, que cantava os versos á janela, rezava o povo da Histórica Aldeia de Cepães Fafe, até lhe chamavam a Casa do Poeta, que ficava dentro de um Fortificado Inédto, no Lugar da Retortinha. mais tarde transformada na vivenda de Felismina de Freitas, tambem chamada antiamente de Casa das Portas. Mais tarde, ao comprar o Jornal “O Primeiro de Janeiro”,na coluna dos “Poetas da nossa Terra”,qual não é o meu espanto; ao deparar com o Poeta: Alphonsus de Guimarães e Cepães, e o seu poiema:-“Em teu veloz e lívido Navio, eis-me a escorrer luar…” etc… Associei logo que era ele. Mais tarde, apareceram lá uns brasileiros, mas ninguém lhe soube explicar. Foi pena que ele não tivesse visitado
      a família, e perde-se o fio á meada. Ainda foram publicadas algumas coisas nos jornais locais, mas depois esqueceram o assunto. Ainda pedi a alguém que o contacta-se no Brasil, mas em vão.Agora com grande desgosto, reparo que faleceu.
      Envio á família enlutada, sentidas condolências. Kotas.

    6. Á muitos anos, mais de 30, que andava a investigá-lo, por me zoar nos houvidos,que ainda era família, que cantava os versos á janela, rezava o povo da Histórica Aldeia de Cepães Fafe, até lhe chamavam a Casa do Poeta, que ficava dentro de um Fortificado Inédto, no Lugar da Retortinha. mais tarde transformada na vivenda de Felismina de Freitas, tambem chamada antiamente de Casa das Portas. Mais tarde, ao comprar o Jornal “O Primeiro de Janeiro”,na coluna dos “Poetas da nossa Terra”,qual não é o meu espanto; ao deparar com o Poeta: Alphonsus de Guimarães e Cepães, e o seu poema:-“Em teu veloz e lívido Navio, eis-me a escorrer luar…” etc… Associei logo que era ele. Mais tarde, apareceram lá uns brasileiros, mas ninguém lhe soube explicar. Foi pena que ele não tivesse visitado
      a família, e perde-se o fio á meada. Ainda foram publicadas algumas coisas nos jornais locais, mas depois esqueceram o assunto. Ainda pedi a alguém que o contacta-se no Brasil, mas em vão.Agora com grande desgosto, reparo que faleceu.
      Envio á família enlutada, sentidas condolências. Kotas.

    7. Sei que meu Visavó esteve no Brsil, no Rio de Janeiro, por volta de 1840, e que tinha mais irmãos. Ele chamava-se: João Lopes da Costa Guimarães, e era natural de Azurém, Guimarães Portugal, residiram na Casa da Madre Deus, e casou para Cepães Fafe Portugal. Não sei se terá alguma afinidade com o Poeta. Gostaria que me informassem, se possível.
      Desde já agradeço. Costas.


    Deixe um comentário

    Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

    Logotipo do WordPress.com

    Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

    Imagem do Twitter

    Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

    Foto do Facebook

    Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

    Foto do Google+

    Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

    Conectando a %s


    %d blogueiros gostam disto: